Paredes finas; a vida ao lado
De repente, ouvimos um som no corredor no andar do edifício com cem apartamentos, ou até mesmo na privacidade de dez apartamentos, e nossa curiosidade nos leva até o olho eletrônico e, através dele, observamos uma movimentação na porta em frente. Pode ser uma visita ao nosso vizinho, um casal de idosos, que se torna a nossa preocupação, pode ser uma visita inusitada que alguém faz à estudante que vive sozinha entre seus livros ou pode ser alguém que consegue burlar a vigilância e insiste em bater ou tocar a campainha da porta vizinha.
Um cachorro late no apartamento ao lado e o nosso responde, ou algum outro mais além responde, e uma sinfonia canina se espalha pelo andar. Um cheiro de café, alguém cozinhando um peixe, o cheiro de um feijão bem-feito invadem o andar e, subitamente, uma fome nos assalta e aquela vontade de receber um convite.
O elevador está lento, alguém descarrega as compras, o aviso, a campainha alertando que a porta do elevador não pode ficar esperando. A impaciência toma aquele que espera, principalmente se mora no andar mais alto, e descer a escada não é uma boa opção para iniciar o dia ou subir para encerrar a jornada.
Passos de crianças socando o teto, as bolinhas e os brinquedos que se arrastam, alguém começa uma obra e, precisamente, às oito horas da manhã o quebra-quebra inaugura o dia.
Risos, choros, alguns sons de discussões, roupa suja se lavando para que todos ouçam e, subitamente, todo o prédio sabe as razões do arranca-rabo. Enfim, alguém pegou alguém fazendo alguma coisa não tão correta e a coisa pode acabar no silêncio ou na polícia.
Alguém inicia sua aula de piano, violão, saxofone e até mesmo uma bateria começa um balanço gostoso que termina no som da guitarra realizando um heavy metal.
Como uma floresta urbana, plantada na rua residencial, com o fundo dos carros que rodam, buzinam e freiam nas ruas, a vida compõe uma sinfonia. Assim como os pássaros e animais da floresta, os sons aparecem, demonstrando a vida em curso, ou se encolhem no silêncio para não serem descobertos, tentando adivinhar onde está o perigo.
Encontros nos elevadores, no hall de entrada, no playground são cobertos de sorrisos e afagos que escondem discórdias e mal-entendidos. Enfim, uma reunião de condomínio onde todos falam, ninguém tem razão e os votos terminam no protesto, decepção para administrar a nova taxa que vai cobrir algum prejuízo ou cuidar da manutenção do prédio antigo que já pede um momento de renascimento.
As conversas perdidas entre janelas não mais se encontram nas portas fechadas. Um silêncio toma conta do andar, e mesmo assim sabemos que há vida dentro das unidades. Problemas a serem resolvidos, cheiros convidativos, barulhos inesperados, alguma coisa que cai no chão e uma melodia para comemorar o aniversário toma conta de tudo.
O vizinho novo que vai ocupar aquelas paredes para contar novas histórias, o vizinho antigo que se despede, deixando um pouco de tristeza e de incerteza sobre quem vai chegar, ou um alívio, como se uma pedra fosse tirada das costas, e a esperança de que o novo nos traga mais esperança, amizade e boa educação.
Quantas histórias guardamos da nossa vizinhança! O que falar dos nossos vizinhos quando chegamos a duvidar se podemos, de fato, um dia viver sozinhos.
Origem da foto: Foto de Andrey Nuraliev na Unsplash
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