Crônicas

O que deixamos para trás

        Nossa vida segue seu curso e deixamos para trás coisas que nos envergonham e outras não. Isso tudo é normal. Não somos perfeitos e somos imperfeitos, somos humanos e cometemos erros e acertos. Algumas vezes erramos por tentar acertar e acertamos quando imaginamos que vamos errar.
         Arrependimentos temos muitos. Não só porque não fizemos, mas porque deixamos de fazer. Culpamos os acontecimentos, as pessoas, as circunstâncias, os momentos e, no fundo, a culpa não é de ninguém. Até porque, culpa é uma coisa muito forte, como uma mancha que carregamos por toda a vida.
        Fazemos parte de um jogo interminável de relações: a palavra dita em hora errada, a mão que não estendemos ou a palavra que ouvimos e nos deixou mágoa ou a mão que não nos estenderam na hora necessária. Cada um, no fundo, cuida do seu interesse. Poucos abrem mão de si para, realmente, cuidar do próximo. E alguns selecionam um determinado próximo como um igual, e o diferente é o motivo de uma indiferença.
        Deixamos para trás nosso orgulho? Não. Algumas vezes o colocamos de lado em troca de um benefício maior. Para trás, nunca. Porque o retomamos logo adiante, como uma roupa que despimos em um vestiário e tornamos a vestir quando saímos para a rua.
       Somos frutos daquilo que deixamos para trás, frutos daquilo que deixamos de viver. A vida é um livro que abrimos e somente nos resta recontar a história, descobrir os erros e tentar não repeti-los. Nossos defeitos e nossas qualidades nunca deixamos para trás, porque elas são um fardo que vamos carregar até o final.
        Nossos arrependimentos são o barro que mancha nossa memória. E mesmo que removamos as nossas lembranças, eles deixam marcas.
       Muitos carregam esse peso por toda a vida. Uma vida nem tanto proba ou uma vida nem tanto regrada. Essas marcas serão cicatrizes no futuro. O que deixamos para trás é mais importante do que vamos enfrentar no futuro. São as lições.
     Na imaginação, tentamos consertar os erros e nos esquecemos que o outro lado também tem seus arrependimentos. Assim sendo, devemos ter paciência com os erros, porque foram cometidos no calor do momento, vivendo uma situação inusitada ou mesmo por covardia e medo. Será possível ter a coragem no futuro, quando enfrentarmos a mesma situação?
        Na vida laboral, a frustração é muito maior do que a vida amorosa. Creio que uma vida profissional plena traga boas lembranças, mais do que a vida amorosa. A primeira pode ser uma decisão fria, a outra uma decisão baseada na emoção ou as duas podem trocar de sentimentos e permanecer para a frente como arrependimentos.
         Não temos controle sobre o futuro, por isso vivê-lo é aprender. E o futuro será deixado para trás com seus risos e lamentos.
         O que deixamos para trás é a vida.

Origem da foto: Foto de Adam Birkett na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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