Crônicas

Facilidade de se perder

        Quando me perguntam qual é a estrada mais difícil de percorrer, eu sempre respondo que é aquela que mais conhecemos. Porque, pela força do hábito, nos acostumamos às suas curvas, já conhecemos determinados locais, adivinhamos a próxima paisagem, os locais melhores de ultrapassagem, etc. Ou seja, não nos preocupamos com as possíveis mudanças que possam ocorrer.
          Por estes motivos, ela se torna a mais perigosa, porque dirigimos no automático e não estamos preocupados.
       No entanto, quando entramos em uma nova estrada, nossa atenção é redobrada, porque não conhecemos o que vem adiante. Somos cautelosos e, mesmo com a experiência de direção, o cuidado é sempre importante.
         Determinadas situações na vida seguem a mesma lógica. Seria como o deixe a vida me levar e vamos seguindo adiante, como se o mundo lá na frente ajeitasse tudo e o universo conspiraria a nosso favor; este é o crédulo vivendo. E não digo que muitos com experiência não sofram do mesmo mal. Sofrem. Existem momentos na vida que vamos deixando as coisas acontecerem porque nada é possível mudar. Não adianta lutar contra as curvas do caminho, não adianta acreditar que tudo pode mudar. Vamos avançando e, com isso, o tempo vai se sobrepondo às nossas vontades. Quando vemos, no final da estrada somos os mesmos quando poderíamos ter sido outros.
        Muitas vezes , ao lidar com traumas no passado, a ficha cai e percebemos ali o ponto onde entramos em uma estrada que julgávamos conhecida, e nos damos mal. Para consertar, entramos em atalhos desconhecidos e, cada vez mais, vamos nos perder e perder, até que ao final de tudo vem o arrependimento.
       É o mesmo fato da experiência. A experiência segue essa mesma lógica. Sempre achamos que somos experientes o suficiente para enfrentar o mundo. E, nesse caso, entramos em uma estrada desconhecida, julgando que de tanto percorrer a velha estrada somos conhecedores de todas.
          E como não é assim, as decepções acontecem, porque lidamos com situações e pessoas que estão também percorrendo suas estradas e se julgando conhecedoras. Paciência ainda é o melhor antídoto. E a falta de paciência e a curiosidade de conhecer o desconhecido nos levam a seguir por atalhos bem pouco recomendados.
       Paradoxalmente, a experiência é o resultado de infortúnios, de estradas que não devemos percorrer, mas insistimos, porque sempre acreditamos que o atalho nos levará mais rápido ao destino final.
      Quando a ficha cai, ao final da viagem, percebemos que retornar é um trabalho árduo e, como o tempo, impossível. A estrada que percorremos não tem retorno, não há maneira de reiniciá-la.
         A cautela é a fórmula para percorrer caminhos desconhecidos e também os conhecidos. Porque as surpresas estarão lá.

Origem da foto: Foto de Yuri Oparin na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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