Crônicas

Ecos de uma morada

        Uma casa tem memórias, como se entre quatro paredes, os ecos das conversas, das brigas, das celebrações e das tristezas ficassem gravados em seus tijolos, cimentos e tintas. Uma casa vazia guarda o cheiro do café da manhã, dos almoços e dos jantares em família. E também guarda cada defeito na construção que se torna uma história para contar, desde os problemas até as soluções. Uma casa pertence a várias histórias, à medida que as famílias vão ocupando os espaços para construí-las, diferentes, iguais, rápidas ou longevas. Uma casa é onde uma família começa, cresce e o tempo se encarrega de esvaziá-la para que outras famílias recomecem, como se fosse uma mãe a abençoar os novos filhos que chegam.
          Das janelas mandamos adeuses e abraços para quem vai. E das janelas fazemos acenos para quem volta. São novos móveis, novas cores e a mesma luz brilhante do sol que entra na sua passagem pelo firmamento, como se reproduzisse por entre eles os fotolitos de um filme.
         Depois de construída e mobiliada, uma casa começa a viver uma vida de personagem. Ela guarda segredos revelados quando alguém se entrega a arrependimentos na solidão e revela tudo que sente, como se as paredes de uma casa fossem as páginas de um livro escrito de alegrias e tristezas.
         Não existe sentimento tão nobre quando voltamos para casa e nos identificamos com os móveis, os quadros, as fotografias espalhadas em prateleiras guardando os momentos da família, dos entes queridos que se encontram mais longe, reescrevendo suas histórias nas paredes de outras casas.
          Inúmeras vezes, podemos voltar na memória às casas onde moramos, tentando reviver os momentos felizes, e tentando aprender com os infelizes a não repetir os erros; mas é impossível não reproduzi-los. Ao contrário das paredes rígidas de uma casa, nosso pensamento nos trai e o repetimos. E são nas casas onde vivemos os momentos mais felizes, e também são o pouso onde nossas angústias encontram eco. Recarregamos nossas energias quando chegamos em casa e recarregamos nossas esperanças quando voltamos no tempo nas casas e nos quintais onde vivemos nossa infância.
          É das casas dos pais que saímos para construir uma nova vida. É para ela que voltamos quando a vida nos prega uma peça e não temos mais para onde ir.
         Podemos ter uma casa, construída de mil maneiras. Podemos ter e viver em muitas delas. Porém, a grande dificuldade é ter um lar para viver. Sem ele, a casa é um ser vazio, cheio de espaços que não se preenchem.
         Uma casa pode ser um momento de tristeza, onde vivemos tragédias e infortúnios. Como um bunker após a guerra, a abandonamos para buscar a paz em outros lugares. Uma casa é construída quando dois se apoiam. Uma casa se torna uma história alegre quando temos vontade de voltar todos os dias para ela. Muitas vezes podemos mudar de casa, porém a vontade de voltar se consolida quando temos a certeza de que vamos encontrar nossos amores. Quando cometemos um erro e encontramos a advertência feita de modo sereno, quando sabemos que vamos encontrar a repreensão, a casa se torna o pequeno inferno que vai tomar nossas vidas. Mas será o céu quando vamos abraçar a quem amamos para celebrar nossas vitórias.
        Construir uma casa é fácil, o difícil é ter um lar. Porque o lar não precisa de paredes, basta que seus moradores se compreendam e tornem um espaço físico em uma alma pronta para voar.

Origem da foto: Foto de Jimmy Dean na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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