Crônicas

Conhecer a si mesmo

        Um gato, antes de projetar o salto, se organiza. Ele posiciona as patas traseiras em um determinado lugar, procura, milimetricamente, colocar esses músculos em uma posição adequada. Depois o corpo em uma posição onde a visão possa alcançar o alvo o melhor possível. A cauda balança, como se estudasse o movimento do vento. Depois disso tudo ele salta e, algumas vezes, falha.
        Falhar ou não independe de como nos organizamos. Mas nada do que fazemos pode prescindir da organização. Dentro do nosso pensamento, nossa imaginação pensa no alvo, no objetivo para ser alcançado. Dentro da nossa cabeça tudo funciona como um script sem falhas. Na realidade, nada disso é presumível. Tudo é uma questão de momento, sorte ou azar, aleatoriedade e etc.
        Talvez, dentro de nós mesmos, não sejamos aquela pessoa que imaginamos ser. Talvez, nos coloquemos em um patamar mais além de nós mesmos. Talvez o gato, imaginando ter a maturidade do salto, não faça questão de que aquele seja o primeiro. Se outros fazem, por que ele não poderia fazê-lo, não é mesmo?
        Quem somos nós para fazer isso? Alcançar coisas imagináveis, muito além da imaginação, muito mais além do que somos. Preparar para o salto exige treinamento, tentativas e erros, aprender, em suma, como as coisas acontecem. A maturidade é a parte essencial para o salto, e nem mesmo isso é uma garantia de sucesso.
        Na vida, a resiliência é o ponto mais forte do ser humano. Temos que nos imaginar sendo de aço puro, apesar de ser uma matéria frágil e sujeita a todo tipo de dano.
        Um herói, quando empreende sua jornada, começa por ser instigado a isso. Alguma coisa dentro dele se move e o leva a saltar. Nem mesmo ele sabe das dificuldades que vai enfrentar, mas salta. No sofrimento da queda vem a resiliência, aquilo que nos torna mais duros e mais vivos, mais espertos e mais maduros. Nenhuma fruta cai da árvore antes do tempo, mas o tempo pode provocar a sua queda. E quando ela apareceu no mundo, se tivesse a imaginação, jamais pensaria nisso. Apenas esperaria o seu momento de amadurecer.
        A vida não espera ninguém. Ela passa por nós como intempéries, como brisa ou como calmaria. A vida é aleatória e imprevisível. No entanto, quando nos preparamos para o problema, quando ele chega, estamos mais preparados do que aqueles que não enxergam essa possibilidade.
       Nem o gato imagina que não poderá dar o salto perfeito, nem os homens podem imaginar uma vida perfeita pela frente. Assim como o gato, sua vida é saltar e tentar todas as vezes, como os gatos fazem. E aos seres humanos cabe saltar e viver, e tentar inúmeras vezes a difícil arte de se conhecer, como todo ser humano deveria ser.

Origem da foto: Foto de Zoë Gayah Jonker na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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