A METONÍMIA TUCANA

     A figura de linguagem – metáfora – é a substituição de uma palavra por outra, quando existe uma relação de proximidade. No discurso, essa figura é substituída por um chavão que se coloca em alguém ou em uma instituição, seja para marcá-la negativa ou afirmativamente.
     Não chega a ser um apelido, mas uma espécie de marca. E, no caso da política, essa marca serve para definir normalmente tudo que de negação possa existir, vinculando o nome e permitindo que adversários encontrem uma forma de apontar discrepâncias, inconsistências e atitudes, nos outros.
     Na recente eleição, a candidata Marina Silva teve a desconstrução de sua imagem como aquela que voltava atrás nas decisões, imputando nos eleitores e entre os adversários a marca da indecisão. Uma marca que pode levar por toda a vida política, principalmente, por ter preferido uma associação no segundo turno com um candidato que negou todo o tempo, em vez de manter a mesma neutralidade que adotou em 2010 e que angariou a simpatia de uma parcela significativa dos eleitores, mostrando que pode existir decência que tanto falta à política.
     Outra criação foi a figura do mensalão, uma movimentação de caixa dois que o opereta amador Roberto Jefferson imputou para o movimento, marcando o PT como o partido que o inventou, apesar de não ter sido o pioneiro. Livrar-se de uma marca, portanto, é uma desconstrução de estratégia bem difícil.
     Passada a refrega eleitoral, diversos grupos, na internet e nas ruas, pregaram uma série de fundamentos preconceituosos, atribuindo a derrota de seu candidato à postura, então, dependente do povo nordestino. Esse movimento foi se alargando e tomando uma forma indesejada de pedidos de volta da ditadura, intervenção militar e até a quixotesca proposta ao povo americano, pedindo não sei que ajuda.
     Em um primeiro momento, o PSDB não esboçou nenhuma reação e ficou aguardando o movimento e seus passos, esperando, talvez, que ele tomasse corpo e por um momento ele pudesse ser o interventor dele, num gesto heroico, ou mesmo numa tênue esperança que dele adviesse alguma utopia de mudança.
     A medida que o movimento foi alcançando patamares, o rótulo de direita foi crescendo e quando o partido percebeu a direita já estava sendo marcada em sua testa, até porque falta um partido realmente de filosofia conservadora não religiosa que pregue uma postura de dureza no combate das desigualdades do país, como se esses problemas pudessem ser envelopados e colocados em uma espécie de reciclagem de onde renasceriam novas pessoas, mais propensas a aceitar a própria desigualdade como fato normal da vida.
     Algumas vozes se levantaram em repúdio, como se o partido tivesse permanecido sentado aguardando o desenrolar dos acontecimentos, e fosse subitamente surpreendido por um assalto de baratas e começasse a se debater para expulsá-las, antes que o rótulo de partido de direita se acomodasse placidamente em seu semblante.
     Se, por um acaso, o partido não acordasse, com as principais lideranças abominando tais filosofias, ao contrário do candidato oficial que se deleitava nos movimentos populares, como se ainda estivesse em campanha, a marca se solidificaria.
     Foram rápidos, como rápidos devem ser aqueles que não querem ver suas histórias acopladas em apelidos, marcas e metonímias que tomam a parte pelo todo.
     Achar uma espécie de metonímia é uma das artimanhas do discurso, assim como as histórias associativas que Leonel Brizola gostava de usar, nas suas sinonímias gauchescas.
     Não confunda com tentativas de explicar determinadas situações procurando o futebol, um esporte qualquer, ou mesmo uma piada. Não é a mesma coisa. A metonímia no discurso tem um ar de deboche ou coisa séria, mas também como deboche e desconstrução de histórias de lisura.