Crônicas

Uma questão de igualdade

         Uma das coisas mais perversas que podemos fazer é tentar igualar coisas que não combinam. O discurso da igualdade tem como princípio que todos somos iguais, perante a lei, mas não somos iguais no caráter, nos sonhos, nas ambições, nos desejos e nos amores. Somos diferentes tentando viver em um mundo de igualdade.
           As condições de cada um é que determinam as igualdades. Ou as condições para que a igualdade aconteça.
          Em um mundo onde a competição é acirrada, a pergunta que fazemos é a razão da competição em si mesma. Quando atletas se preparam para uma competição, eles são preparados de uma maneira possível, nas mesmas condições. E se apresentam para competir, igualar ou superar recordes. No entanto, por um privilégio corporal ou mental, alguns atletas vão superar os limites e serão os vitoriosos. Às vezes, competem por um largo tempo e mantêm suas performances e os outros figuram como coadjuvantes.
          No entanto, neste mundo de competição ninguém pode reclamar de nada, porque as circunstâncias preparatórias serão mais ou menos as mesmas. O tempo de dedicação é o mesmo, em via de regra.
           Logo, como falar de igualdade entre coisas desiguais?
           No mundo real, longe de holofotes e festejos, os desiguais estão em competição pelo duro trabalho de ganhar a vida e sobreviver.
          Nesse campo, os desiguais são muitos não por uma questão de benefício corporal ou mental, mas, simplesmente, por uma desigualdade econômica que impede qualquer um que esteja nessas condições possa competir de fato, romper limites e ganhar o sucesso. Não, existe um mundo em que muito se fala de igualdade, na busca por ela, desde que os menos desiguais sempre estejam no comando.
         Ao contrário do mundo dos esportes, quando um fenômeno vive o seu ocaso para que outro assuma o seu lugar, no mundo real, quem está na frente sempre continua no mesmo lugar. Claro temos as honrosas exceções. Porém, nesse mundo real, existe o fator sorte, que sempre favorece poucos em detrimento de muitos.
        Nada é mais desigual do que a competição pela sobrevivência, gerida, regulada por privilegiados. Esses privilegiados nunca vivem o ocaso, e sempre perpetuam suas espécies nas gerações futuras, na exata proporção que os muitos desiguais se perpetuam nas suas desigualdades.
       Competição é um termo tão molesto que, somente aqueles que o proferem e aqueles tolos que ainda acreditam nele, não deveria existir no mundo real, no mundo onde os atletas não são preparados nas melhores condições.
         Grosso modo, os coadjuvantes existem somente para sê-los e não há nenhuma esperança de que isso seja revertido.
       O discurso da igualdade se torna vazio quando tenta equiparar forças que nunca poderão fazer frente. Falar em desigualdade sempre será mais forte que seu antônimo. Porque a igualdade parece um sonho a ser feito e nunca realizado, enquanto a desigualdade é fato real. E competir não é ainda a hora, somente quando todos os atletas estejam preparados.

Origem da foto: Foto de Markus Spiske na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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