Só se for de beijos
Têm coisas na vida que enchem a gente. Fake news é uma delas, dessas que enchem nossa vida virtual, em que conversamos com amigos e esculhambamos inimigos. E disso aquela vida está, realmente, cheia. Notícia ruim, então nem se fala. Sabe da última? Lembra do fulano, da fulana, pois é? Assim como as fake news, elas chegam sem a gente pedir.
A vida da gente tem muito de preenchido: passado é cheio de aventura e assunto bom, mas também daqueles que a gente quer esquecer. Presente, bem, presente é cheio de coisas para reparar do passado e para preparar o futuro. O futuro, é claro, é cheio de esperança. O problema é que o passado vai ficando mais longo e preenchido, o presente é esse dia a dia cheio de assuntos para resolver, e o futuro vai ficando mais curto para tanta coisa que a gente quer enfiar nele.
Outra coisa é opinião, que enche a vida da gente. Todo mundo tem uma opinião sobre algo. À nossa volta é essa gente que sabe tudo, especialista em qualquer causa, e isso não requer prática e nem sequer habilidade, já dizia o camelô, tentando empurrar a bugiganga da hora.
E hora? Não bastando encher nosso dia com o caminhar dos ponteiros do relógio, apesar de ser a mais lenta, e frequentemente ser ultrapassada pelo parceiro, tem hora pra tudo. Compromisso é uma coisa que enche a vida da gente. Não existe o dia que não tenha um, e com hora marcada, e com a hora desmarcada. Às vezes, você não tem o compromisso naquele dia, mas já sabendo que vai ter que acontecer dali a algum tempo, então, já temos o sofrimento antecipado. E a preocupação vai aumentando tanto, que vai enchendo até o tempo faltante lá na frente, na falta de um modelo mais apropriado, ou um problema novo.
Lágrimas são outra coisa que enchem, inclusive os olhos. E tem lágrima pra tudo: para chorar mesmo, de uma notícia ruim, de emoção, pelo gol que entrou e até pelo que não entrou. Lágrimas afogam a gente num mar de… lágrimas, e enchem, enchem a gente as tais lágrimas de crocodilo, aquelas falsas, tipo fake news (Opa! Olha ela aí de novo enchendo a gente!).
Fazer o que a gente não gosta, também é uma coisa que enche a vida da gente. Acordar todos os dias, seguir para um trabalho que não nos agrada, realmente é uma coisa que enche…o saco da gente. E olha que saco cheio já é uma realidade, e pela cara de maus bofes que as pessoas carregam pelas ruas, estar de saco cheio já é uma plenitude de coisas que desagradam.
O ideal seria que na nossa vida estivessem a alegria e a esperança ocupando o lugar do enchimento, do estofo que pode nos levar mais adiante. Mas não adianta, porque o sujeito do carro da frente não anda e nosso pequeno tempo disponível já vai perdendo espaço para o tempo que a gente não tem, um vai enchendo o espaço do outro.
Voltamos ao início, quando o mais esperado é que não houvesse nada além de novidades nenhumas. Porque novidade pode ser para o bem ou para o mal. Mesmo sendo novidade, coisa nova, de arrebentar, de surpreender, a cara do mensageiro já diz tudo que não deveria ser.
– Sabe o fulano?
– Quem? Aquele lá de cima, de novo?
– Não, é outro.
– Não diga! (o que para nós é um subterfúgio para dizer: Mas, não diga, mesmo!).
Porque se o sujeito não disser, fica por isso mesmo. Que bom seria a ausência da novidade.
Mas, no final das contas, alguma coisa na vida tem que valer a pena se for pelo excesso. E aí fica o aviso: Se não for de beijos, por favor não encha!
Origem da foto: Foto de Jainam Sheth na Unsplash
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