Crônicas

Ser ou não ser egoísta, eis a questão.

          Você se imagina uma pessoa egoísta? É claro que um defeito, um atributo tão nefasto seria refutado por todas as pessoas, inclusive as pessoas “de bem”. Mas nem tudo que brilha é ouro, ou aquilo que não brilha não deixa de ter sua qualidade ou seu atrativo.
          Se imaginarmos que o egoísta é um ser solitário, que fica guardando para si as coisas e não aceita dividir com ninguém, podemos considerar que não seria uma coisa tão abominável assim. Afinal, se eu gosto do meu silêncio, da minha tranquilidade, de ficar cuidando da minha vida, isso é ser egoísta? De acordo com a definição, sim, mas devagar com o andor, certo?
           Egoísmo pode ser uma autodefesa, uma forma de se resguardar de inimigos, até mesmo porque se alguém sofreu alguma adversidade no passado, o bom conselho é ficar quieto e em silêncio. Uma forma de autodefesa, também, é um tipo de cancelamento, bloqueio, seja lá o que for no mundo. Afinal, se o outro pensa diferente de você, passa pela cabeça dele algumas ideias aterradoras, cancelar o sujeito não deixa de ser um egoísmo, mas também uma forma de resguardar a própria integridade.
          Muitos acham que atingir a maturidade é atingir a perfeição. E não é. Maturidade é uma forma de egoísmo de quem aprende a ver a posição das pedras no caminho e sabe que é bom evitá-las. Essa estratégia que a maturidade nos traz é uma forma de egoísmo natural, até porque não tem como transmitir ao outro a experiência. Ele não vai acreditar, é egoísta demais para isso.
       A experiência, por isso, é um tipo de egoísmo, quando nos negamos a seguir determinado caminho, porque sabemos, por vivência anterior, onde aquilo vai chegar. Essa economia de procedimentos nos leva a sobreviver, e, muitas vezes, o egoísta sobrevive ao esperto.
          O esperto então é o egoísta que se informa, que não avança para onde não é possível continuar. E voltamos ao egoísmo como autodefesa, uma forma de encarar o mundo.
         No mundo de hoje, nossas escolhas e amizades também passam por um tipo de egoísmo, porque evitar amizades tóxicas é uma preservação. A amizade tóxica procura o oponente para poder extravasar a sua raiva interna. É um egoísta na forma de pensar e atacar, porque só pensa em si mesmo. O nosso comportamento econômico é egoísta e ter vergonha de arriscar-se é a nossa sobrevivência. Ser altruísta em um mundo egoísta é um desafio enorme.
         Ser altruísta não é uma atitude inteligente em um mundo onde o egoísmo impera. O melhor altruísta é aquele que cuida de si e se cerca de próximos, em pensamentos e credos. Somos uma sociedade dividida em egoísmos: um lado não consegue conter sua opinião, contra o outro que se contém para não desperdiçar seu tempo. Ser ou não ser egoísta: eis a questão.

Origem da foto: Foto de Vasily Koloda na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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