Crônicas

Origem

        Em um mundo onde o copia e cola é uma constante, falar de origem soa um pouco estranho. Nesse caso, gostaria de descrever a origem como a formação do indivíduo. Convém notar que muitos se orgulham de sua origem no exterior, mencionando um ancestral nascido em áreas supostamente mais civilizadas. Nesse caso, a origem europeia, fruto da imigração de europeus que viviam marginalizados em seus países e saíram em busca de um eldorado tropical, que nos “brindou” com os seus traços “originais”.
      Contudo, há um certo orgulho, por parte desses “privilegiados”, ao mencionarem isso nas conversas com os amigos, como se isso lhes desse alguma distinção especial. Todavia, muitos se consideram especiais e orgulhosos de suas origens, apesar de ser possível que sejam segregados naqueles países de origem ou nunca consigam conhecê-los.
       Além disso, existe uma origem que fica esquecida pelo tempo e que deveria ser um ponto de orgulho real, tangível, que definisse o nosso futuro pessoal e o futuro de nosso país, como nação: a origem social.

ESQUECIMENTO PROPOSITAL 

       Consequentemente, muitos esquecem, por conveniência, por vergonha ou por não parecerem estar em posições inferiores, a origem social como um predicado preferencial, porém a transformam em berço. Precipuamente, vir de berço envolve uma educação natural, um certo jeito de ser e de se comportar ou uma elegância toda peculiar, um estereótipo de gente rica e de bem.
      Todavia, nascer em berço dourado não faz de ninguém especial, mas tem gente que se acha especial por dizer que tem essa origem, por trazer um nome importante, estrangeiro e, muitas vezes, uma importância vinda de um berço não tão nobre.
     É importante dizer que a origem não tem nada a ver com a cor, com a origem familiar fora do país, de ser rico ou pobre. Acredito que lembrar da sua origem é respeitar aqueles que ficaram para trás, que não conseguiram alcançar sua independência financeira, social, vivendo na dependência de outros pelo resto das suas vidas, por força daqueles que esquecem sua origem e os seus que ficaram no caminho.
     Destarte as dificuldades de cada um, muitos conseguem trilhar um caminho de vitórias, ocasionado por circunstâncias favoráveis, sorte e outros fatores que conjuram para o seu destino. Esses alcançam postos relevantes nas mais diversas áreas, principalmente aquelas que envolvem algum talento especial para atividades esportivas, intelectuais ou outras. Por outro lado, muitos que conseguem chegar a um nível de aceitação pelas classes mais ricas esquecem as suas origens e se aliam a pensamentos aos quais nunca pertenceram, sendo companhia para aqueles que nunca se importariam com suas vidas.
     Esses são os momentos em que conhecemos as pessoas. É quando alcançam postos de destaque e podem ser porta-vozes daqueles que perderam sua voz, seu espaço e precisam de alguém que diga, conte e revele as suas realidades, mas, na grande maioria, isso não ocorre.  Muitos políticos são assim, quando alcançam a notoriedade, levados por aqueles que ficaram pelo caminho, assim como magistrados, celebridades e outras profissões de destaque.
     Diriam alguns que merecem seu lugar porque lutaram por ele. Mas lutar por ele demonstra como é difícil conseguir isso, apesar da origem. Ninguém pode repetir o sucesso de outro, porque cada um tem a sua individualidade.
     Em contrapartida, esquecer a sua origem para não defender aqueles que ficaram para trás é uma questão de falta de empatia. Em última instância, para aqueles que não esquecem, revisitar o lugar de origem, mesmo na lembrança, em um momento de decisão, pode nos dar a esperança de que há possibilidades, sempre, de melhorar o caminho para os que virão depois.

Origem da foto: Foto de Achim Ruhnau na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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