Vida de maluco
Onestaldo era um doidinho de bairro que se tornou um grande personagem da minha juventude. Anos mais tarde, compreendi o seu nome quando conheci outro sujeito com o mesmo nome, mas não era como ele. Até então, ao ouvir pela primeira vez o nome, e como demonstrasse dúvida, um amigo me disse:
– Ah! O Nestaldi?
Por anos eu o chamei, lembrei nas conversas, com o nome de Nescau, tal a rapidez da informação quando foi passada. Por isso eu simplifiquei, adulterando loucamente o nome.
Uma das suas performances era cantar “Babalu”, canção interpretada por Ângela Maria, uma das celebridades da época. Onestaldo, mas ainda Nescau para mim, se dependurava em algum lugar na encosta do morro da Coroa, no Catumbi, e, como um lobo uivando para a lua, varava as noites a entoar a canção, que tão somente se resumia ao tal “Babalu, aiê”.
Sua boca desdentada agradecia, em êxtase, os aplausos e os apupos da turma reunida na tamarineira na subida do morro. Pediam bis e Nescau não perdoava, trazendo para a cintura os andrajos amarrados com um barbante amarelo, desfiado, enfunando os pulmões para o momento esperado. E soltava a voz, acompanhada da gargalhada final; era o bufão interrompendo as nossas conversas.
E ele curtia o momento desejado pela plateia, exibindo seu sorriso de gengivas e poucos dentes, transformando-se em um misto de assombro e riso nervoso, quase apocalíptico.
Outro sujeito, também em seu desequilíbrio, foi o Aranha. O significado do seu nome, o porquê de ser assim chamado eu nunca descobri. Ele passava regularmente em frente a minha casa em andrajos, com o cabelo em desalinho, balançando um pedaço de papel como se fosse um abanador, e um cigarro apagado na boca. Fico até hoje tentando descobrir qual seria a associação entre a atitude e o nome. No meu entender, seria o cabelo desgrenhado.
Aranha não tinha nenhum outro atrativo a não ser parecer o Aranha mesmo. Passava incólume, malcheiroso, assim como o Nescau, e não era tocado por ninguém. Nescau tinha uma irmã, que de vez em quando o retirava das ruas, acabando com suas exibições. Aranha não tinha ninguém. Era um solitário. Andava pelas ruelas do morro, praticamente sem parar, e dormia no lugar onde o cansaço o encontrava.
Conheci também o Gentileza. Na saída do Rivadávia Correa, frequentemente, lá estava ele, no meio dos alunos, exibindo sua tábua com os dizeres e as flores. Mas ele não era doidinho de bairro. Segundo ele mesmo, era tão somente maluco por nós, respondendo àqueles que assim o chamavam.
Como teria sido a juventude sem eles? Como ficaram, em nossas memórias, algumas dessas figuras! No fundo, inofensivos, motivos para as mães os apontarem para os filhos menores e os manterem na linha. Literalmente os homens do saco, aqueles a quem seriam entregues caso não comessem, estudassem ou não fossem dormir cedo.
Seus desaparecimentos, que fim levaram, nada disso passou a fazer parte da nossa vida. Desapareceram simplesmente. Outros doidinhos perambulam pelos sinais ou caminham pelas ruas, indolentes, pedintes.
Antes, eram chamados de “malucos”, e o termo passou a fazer parte de tudo. A própria palavra pode estar presente em várias formas: nos cumprimentos, na referência a alguém – E aí, maluco?; na maneira de elogiar o vanguardismo de alguém, pelas ideias inovadoras – O sujeito é muito maluco! E outras mais.
Pois é, “maluco” tem dessas coisas. O “maluco” mesmo vive na sua própria maluquice e, considerando as ponderações médicas, vive em seu próprio mundo, alheio a tudo. Hoje, alguns “malucos” têm um manual de conduta. As maluquices são fabricadas e feitas por personagens construídos. Programas de televisão, nas suas bizarrices, fazem verdadeiras loucuras em busca da audiência. Talvez caiam no agrado de alguns, porque haverá sempre um “maluco” em nossas memórias. Lembramos deles com carinho infantil, mas somos condescendentes com aqueles que se fazem de malucos para chamar nossa atenção.
Origem da foto: Foto de Afif Ramdhasuma na Unsplash
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