Interação ausente
Não há a menor dúvida de que o homem não vive só, ele necessita, sobretudo, de um ambiente onde possa interagir. Embora esteja só em algum lugar, ele vai procurar, de alguma forma, estabelecer diálogos com os elementos que estão no mesmo ambiente. Ele pode interagir com a natureza, conhecendo seus comportamentos através da Botânica, ou com os animais, separando aqueles inofensivos ou não, e como lidar com eles. Até mesmo com os elementos que não são seres vivos, o homem, ao procurar entendê-los, promove atos interativos. Em todos esses, de uma forma ou de outra, o homem precisa ver, ouvir, cheirar, falar e, principalmente, tocar para criar uma intimidade natural.
Mais do que isso, o homem necessita de outros seres como ele para estabelecer comunicação e interação, desenvolvendo formas de aprendizagem, confronto de ideias e troca de experiências.
Porém, ao falarmos de interações, o tato tem um papel muito importante, porque ele age na ausência da visão, do olfato, da audição; o tato é o sentir e perceber. Mas, além disso, com ele, a própria ausência da voz pode passar ao outro o que sentimos: agradecimento, medo ou proteção.
As mãos têm um papel importante na cultura humana. Com elas construímos coisas, acenamos para nos despedir, para festejar ou para pedir ajuda. E, nas mãos, está o primeiro contato que a pele estabelece com o outro. Depois delas, a nossa pele pode transmitir sensações que nos agradam ou decepcionam.
Seguindo a evolução humana, esse tatear passou a ser menos interativo e pessoal. Hoje, lidamos com esses tatos para rolar telas frias de telefones ou para colocar as mãos em teclados e espalhar nossas sensações, não mais como experiências humanas, mas como relações virtuais.
Compramos coisas por uma via virtual, sem sentir a sua textura, a qualidade ou a perda do experimentar, sentindo como aqueles objetos vão interferir em nossas vidas.
Um livro perde a sua originalidade quando não conseguimos sentir a aspereza do papel passeando por nossos dedos, não podemos movimentá-lo a partir das nossas posições, mas temos que mudar de comportamento para ler em uma tela fria e imóvel.
Podemos ler as qualidades de uma bebida, ver com detalhes de aumento a beleza de um vidro de perfume ou de um objeto de decoração, e ver a textura do líquido, mas sem sentir o seu cheiro, nem mesmo o tatear pode se sobrepor a esse desafio.
Nessas interações ausentes, perdemos até mesmo o tato, quando lidamos com os outros. Por trás das telas dos computadores, perdemos a nossa habilidade ou exteriorizamos nossas raivas, sem temer a educação de tratar “com tato” os problemas que os outros vivem: perdemos o tato e ganhamos insensibilidade. Com isso, a internet nos proporciona criar “personas” em substituição às nossas faces e nos tornar seres sem tato, para sentir a nós mesmos: como se sente alguém que se desfigura para agradar a outros e perder a sua identidade?
O tato, o contato pessoal ou até mesmo um abraço nos fazem falta. E quando nos acostumamos a não mais tatear na imensa solidão do mundo cibernético, não apuramos mais a nossa visão, audição, olfato e fala para agirmos como reais seres humanos.
Origem da foto: Foto de Shane Rounce na Unsplash
SUBSCREVA PARA RECEBER NOVOS POSTS
#OTrunfoDoTato #RelaçõesHumanas #MundoDigital #Empatia #ComunicaçãoNãoVerbal #Sensibilidade
Views: 8
