Crônicas

Informação x ideias

          O néscio é definido como o sujeito ignorante, aquele que não tem uma ideia mínima para entender a realidade e se debate entre a informação e a ideia. Ele se informa por todos os meios que pode, desde que a informação caiba no seu recorte de realidade. Para ele, o bom senso não faz sentido e se sente confortável com a sua total ignorância. Além disso, o néscio não sente (ou não consegue perceber) a sua alienação em relação à realidade. Ele não busca o conhecimento, e nem tampouco o desconhecimento, porque a sua noção de mundo é relativizada pela sua ignorância; o seu mote de vida é permanecer na ignorância.
          A aquisição de conhecimento requer uma dedicação e uma entrega para absorver a informação, saber trabalhá-la, criticá-la e, sobretudo, reformulá-la, a partir de reflexões pessoais. O néscio não entra nesse mundo, simplesmente porque, ao contrário do preguiçoso, que se recusa a estudar e a se informar, o néscio curte e vive a sua ignorância pessoal.
          Em relação à informação, estaríamos em uma contradição, porque o néscio tem acesso às informações, prontas em um clique, assim como todos os caminhos a percorrer. Hoje em dia, a IA é a grande aliada daquele que procura o conhecimento, o saber fazer e o como fazer. O néscio não está alheio a essa realidade, porque ele também acessa o mesmo equipamento e se instrui com o bombardeio de informes que inunda a web: são dois pesos e duas medidas.
         O cego digital é um tipo de néscio da era da internet. Ele tem que lidar com um mundo complexo e perigoso para aquele que ignora o mundo. Ele é um crédulo, porque é mais fácil acreditar naquilo que os outros dizem, inclusive denotando uma autoridade que não têm, onde o Influencer os encanta e entorpece. Um bom local iluminado e decorado, onde uma voz convicta do que faz organiza armadilhas com falsos debates, faz crer ao néscio que toda aquela imagem tem um fundo de credibilidade. Eles buscam em outros as ideias que não são capazes de conceber. O néscio moderno se adéqua facilmente a essa realidade virtual, porque a ignorância passa a ser uma escolha e não uma deficiência. Muitos preferem acreditar naquilo que ouvem ou leem, bastando que aquelas ideias sejam a perfeita imagem que fazem do mundo.
         O néscio moderno luta entre a informação e a ideia. Apesar de receber uma inundação de informes, as ideias não são capazes de evoluir, porque falta o discernimento, aquela capacidade de separar o joio do trigo. E, para isso, o néscio não se sente à vontade. Afinal, há uma credibilidade patrocinada pelo computador ou pela IA que, para eles, talvez, seja capaz de pensar como um ser humano e, portanto, por que não lhes dar o devido crédito?
         Nesse caudal de informações, até mesmo para aqueles que buscam o discernimento, o mundo é uma grande confusão; e ninguém é capaz de arrumar sua mente para pensar quando as informações que chegam, algumas com fundos de verdade e outras não, são um turbilhão de números e palavras.
        Hoje, o néscio não é somente aquele que cultua a própria ignorância, mas também aquele que tenta se informar em locais onde o mesmo pensamento circular cria a figura do néscio com ilustração.

Origem da foto: Foto de Sander Sammy na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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