Contrassenso
Quais as razões que nos levam a agir contra a lógica das coisas, a abandonar os caminhos confortáveis para nos colocarmos em aventuras sem sentido, que podem nos ferir ou nos fazer sofrer? Talvez a lógica humana seja, justamente, desafiar aquilo que é lógico para encontrar, no outro lado, as explicações ou mais perguntas sobre o que nós somos. O ser humano é um contrassenso na natureza. Ao contrário de usar sua lógica, sabendo como ela é importante para ele e para os demais seres vivos, segue destruindo aquilo que deveria ser preservado.
Porém, essa falta de lógica como adentrar um mar desconhecido para encontrar novas terras, subir no pico mais alto do mundo, caminhar por trilhas temerosas e desafiadoras faz do homem esse ser ilógico, destrambelhado e, também, fascinante. Somente os aventureiros e os ambiciosos desafiam a lógica para encontrar novos mundos e fazer novas descobertas; o homem é um especulador da sua própria existência.
O contrassenso está de mãos dadas, muitas vezes, com essa ambição, quando destrói lugares históricos para construir prédios que não combinam com aquele ambiente, causando desconforto no olhar, mesmo que a construção tenha uma modernidade estonteante. Mas o que é a beleza diante da contradição? A beleza está no espanto de vislumbrá-la e não na agressão que ela provoca. O contrassenso provoca a razão e a questiona quando, em nome da ambição, se adultera o ambiente. Para aqueles que realizam essa intervenção há uma insensibilidade diante do antigo, como se fosse o velho e devesse ser destruído.
O espaço que ocupamos no mundo fere o bom senso da convivência. O conforto afeta a mobilidade quando estamos diante de um engarrafamento. Pedimos liberdade e nos confinamos dentro de uma estrutura de ferro e aço imaginando que chegaremos a algum lugar. Estamos confortáveis no ar-condicionado perante o calor e, ao mesmo tempo, isolados dentro de um carro, e deixamos a vida, esse presente que ganhamos, passar inerte.
O vazio de um silêncio de alguém tímido em uma festa, onde os sorrisos se espalham, as conversas fluem alegres, é o contraditório da vida. O desejo daquele ser em interagir, de poder mostrar a sua capacidade de se comunicar, rir e se alegrar como os outros, é sufocado pelo barulho dos outros.
Por outro lado, o contrassenso é uma maneira de provocar e desafiar preceitos definidos. O mesmo tímido pode se revelar no observador que não se desgasta, para interagir com aqueles que significam o próprio contrassenso. Quantos dos participantes daquela alegria são, realmente, alegres? É um contrassenso o fingimento das etiquetas, das palavras irônicas e dos olhares invejosos. O ser tímido não é um covarde ou um alienado, ele pode ser aquele que detecta essas contradições dos seres humanos e se compraz em desafiar sua lógica para entender a ilogicidade dos outros.
A paixão é um contrassenso quando tentamos caminhar por uma estrada de paixão, desafiando a lógica da razão sobre se aquele relacionamento merece o investimento da nossa saúde mental.
O homem se contradiz quando desafia e, ao mesmo tempo, é admirado por desafiar. O contrassenso nem sempre é um malefício, ele pode ser o deslumbramento. Seria um contrassenso parar a vida diante de um desastre iminente, apenas para aproveitar aquele momento para encher os olhos de beleza? Seria um contrassenso reter para sempre na memória um instante único no mundo? Mas, para muitos, é dizer: vivi para dizer e contar.
Origem da foto: Foto de Anastasiya Badun na Unsplash
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