Crônicas

Um novo sentido de ajuda

         A realidade mudou a forma como nos preparamos para os desafios do dia a dia. Quando comparamos os tempos sem a tecnologia atual, nossa dinâmica de programação dependia mais da intuição e do perguntar a alguém e tínhamos uma ideia um pouco fantasiosa da realidade do que os artifícios que a tecnologia nos oferece. O mundo era desconhecido, ainda que as informações que obtínhamos fossem as melhores possíveis.
         Provavelmente, alguns de nós viveram experiências distintas daquelas de hoje, quando pesquisávamos algum assunto para nossos estudos. Na prática, necessitávamos dos livros que abundam as bibliotecas e, por consequência, ficávamos um pouco perdidos. Encontrar informações dependia tanto da sorte quanto da persistência. Era como ler e reler com a certeza de que tudo estava ali.  Também, as organizações dos dados e a maneira como preparávamos o texto, indo e voltando, fazendo e refazendo até chegarmos ao produto final.
       Por outro lado, organizar algo, desde uma viagem até uma compra qualquer, se convertia em uma incógnita. Buscar informações nem sempre confiáveis, apenas seguindo as orientações, repetir as experiências de outros, como escapar de situações problemáticas, burocracias e outras coisas.
        Não bastasse isso, uma simples viagem para visitar um parente ou amigo, sabendo apenas o nome e o número da residência e, de acordo com as informações dele, tínhamos um mapa virtual funcionando na cabeça, e o nosso informante era o pedestre que passava ao lado e nos indicava as direções.
         Somada a tudo isso, a sensação de que, embora com extrema boa vontade, tínhamos a certeza de que o imponderável e o inesperado deveriam fazer parte da experiência.
         Em resumo, as nossas aventuras eram aventuras desde a preparação até o fato.
         Nesse meio tempo, aparece em nossas vidas uma tecnologia que funciona como o ajudante quase perfeito. O algoritmo vem em nosso socorro quando corrige os defeitos do nosso texto, e com um clique nos coloca no local a ser visitado, com a ajuda do GPS que nos guia com noventa e nove por cento de certeza por onde devemos seguir, fugindo dos engarrafamentos e encontrando a rota mais rápida.
       O computador nos dá o papel e a caneta, com o direito de passar a borracha nos erros, como se nada tivesse acontecido. Além disso, escolhemos os passeios, olhamos comentários, fazemos compras sem perambular pelas ruas e as recebemos na porta das nossas casas.
       O fato é que essa “ajuda” nos transformou em dependentes e não mais em formadores da originalidade. Tudo o que escrevemos, falamos, pesquisamos, recebemos a “ajuda” especializada do algoritmo. Somado a isso, o nosso celular “ouve” nossas conversas e, como um intrometido indesejado, nos enche de sugestões, ainda que não estejamos procurando nada.
        A realidade é que essa ajuda, ao mesmo tempo, nos condiciona e modifica nossas opiniões sobre as coisas.
        Ainda que queiramos nos libertar dessa ajuda, percebemos que nossas habilidades motoras ficam restritas ao teclado e ao rolar intenso das telas dos celulares, como a digerir informações, sem poder elaborar cada uma delas.
       Para encerrar, essa ajuda da tecnologia nos faz pedir ajuda para uma desintoxicação. Para alguns, uma tarefa impossível porque a dependência criou uma zona de conforto. Para outros, é um desafio tentar retomar suas vidas e retomar o seu controle.

Origem da foto: Foto de Joe Pohle na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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