Crônicas

Norte da vida

            Você recebe um corpo e procura um mestre para aperfeiçoá-lo. E se ter o corpo é ter um destino, o que se aprende na vida se torna imortal.
        Esta complexidade que é viver nos coloca em um paradoxo. Enquanto o corpo se desfaz com o peso do tempo, tudo aquilo que aprendemos guarda um pouco de imortalidade. Se nos dedicamos a aprender e apreender tudo à nossa volta, em algum momento temos a sensação de que nos expandimos, desproporcionalmente ao peso da idade.
         Talvez, seja essa uma das razões da angústia de homens que decidem desafiar o seu destino e questioná-lo à medida que absorvem o conhecimento. O conhecimento, assim, nos dá um sentido de imortalidade e, por conseguinte, um desejo que a vida continue e não se interrompa.
        A questão da imortalidade tem a ver com um sentimento de mundo muito além da imaginação. É como uma necessidade que temos e sentimos de querer cada vez mais. O mundo é tão grande, e muitos não conhecerão ele em sua totalidade e grandeza. Alguns conhecem um pouco e parece o muito. Outros o conheceram muito e o entenderam muito pouco; deveríamos ter várias vidas para viver todas as culturas e sentir o real sentido da humanidade.
        Nosso corpo se limita a um espaço. Tanto o espaço físico de um país, sociedade quanto um espaço temporal que se expande até o infinito, através da imaginação.
       Quantas vezes nos perguntamos, olhando uma biblioteca, que não viveremos o bastante para ler todo aquele conhecimento? Além do conhecimento que vai chegando com os novos pensadores.
No entanto, todo o conhecimento que as pessoas deixaram mostra um certo sentido de imortalidade. Suas palavras, pensamentos, contraditórios ou não, estão lá, depositados para que outros os observem e continuem seus trabalhos. Essa imortalidade é sem fronteiras e sem barreiras para interromper sua caminhada.
       Algumas sociedades e grupos ignoram esse conhecimento pelo simples fato de não compreenderem o sentido da imortalidade. Prezam, somente, um desejo de interromper e criar um mundo paralelo, acreditando que podem reescrever a história do mundo. Seres assim são mortais, ambiciosos caricatos e ignorantes da própria existência. Há um inconformismo no sentido dessa reescrita porque existe uma certa preguiça de questionar esse conhecimento dentro deles mesmos. Esse questionamento e evolução é que guardam a imortalidade. Como se o conhecimento fosse um moto-contínuo que não pode parar, rumo à eternidade.
       Todos aqueles que não conseguem inserir no conhecimento o seu conceito de vida negam a imortalidade, imaginando que possam construir a sua. Na verdade, são os supostos tementes do divino, mas que, no fundo, são ateus, fruto da própria ambição sem sentido.
         Imortal é aquele que conserva, dentro de si, a busca do conhecimento e da compreensão do mundo. O seu pensamento continua, enquanto o corpo se vai.

Origem da foto: Foto de Honey Yanibel Minaya Cruz na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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