Metrópoles e lugarejos
Uma cidade no interior, bucólica e silenciosa, perdida no meio de montanhas ou na beira de uma estrada, sempre parecerá aborrecida e desinteressante para aqueles que estão acostumados ao barulho e à dinâmica de uma cidade grande. No entanto, os mesmos olhares apressados, de alguma maneira, estão presentes nos dois lugares.
Aparentemente, a vida bucólica de uma cidade no interior não mostra, aparentemente, as mesmas preocupações, mas as pessoas são as mesmas, vivendo os mesmos problemas e aflições. A única diferença é que o tempo parece, também aparentemente, passar devagar. Normalmente, vemos as pessoas sentadas em praças, observando os passantes ou identificando os estranhos. Essa mesma atitude também vemos na cidade grande quando das janelas dos apartamentos, encaixadas umas sobre as outras, olhares se perdem sobre os transeuntes, em maior número, passando apressados ou não pelas ruas movimentadas.
As cidades acordam da mesma forma: o som do movimento dos carros e pessoas, o burburinho que aumenta gradativamente e o pulso acelera. O anônimo visitante é o único que estabelece as diferenças entre elas. Nas cidades maiores, o estranho figura como normal, como pertencente à comunidade ou ao bairro. Nas cidades menores, o estranho se destaca, ocasionando os olhares dos moradores tentando ativar na memória quem é essa pessoa. Na cidade grande, o anônimo faz parte da multidão e está, em certo sentido, dentro da intimidade, e nas cidades menores ocorre o contrário.
As cidades são museus a céu aberto com seus lugares históricos e representativos de uma época e, ao mesmo tempo, elas mudam de cenários, à medida que as construções novas se sobrepõem aos casarios antigos, e fora de lugar, para a “modernização” que pede passagem. Nas cidades menores, muitas vezes pela falta da dinâmica econômica, a mudança de cenário é mais lenta ou inexistente.
Muitos migram das cidades menores para as maiores em busca de um ato transformador nas suas vidas, possibilidades que se apresentem para dar lugar às ambições. Voltar para a cidade natal, coberto de vitórias conquistadas, é um ato de valor; do filho da terra que volta vitorioso e é fonte de admiração. Mas pode ser também motivo de frustração, do encontro dos sonhos com a realidade. Acostumar-se a não ser reconhecido nas esquinas e encontrar olhares maliciosos e pouco convidativos é o cartão de apresentação das cidades grandes. A cidade grande é uma grande mãe que abraça filhos que chegam, os educa, castiga e fustiga para que mostrem por que vieram de tão longe para tentar conquistas.
Por outro lado, da cidade grande chega gente cansada de passar maus momentos, para curtir uma aposentadoria sem pressa, poder andar pelas calçadas sem receios, mostrar-se desprendido e em paz com a vida. Deixar aos poucos que a vida dinâmica e muitas vezes sem sentido se vá, e em lugar dela uma vida de eternas férias se anuncie.
Para ambos visitantes, a saudade vai sempre perdurar. Ninguém abandona a sua história para construir outras sem deixar de lembrar os tempos de infância e juventude, vividos em seu lugar natal.
O trânsito de pessoas e o eterno vai e vem entre cidades são artérias de sentimentos que fluem como sangue dentro de um corpo. Uma metrópole olha com inveja a calma das ruas de um lugarejo, e um lugarejo olha com inveja a força natural de uma metrópole. Entre elas, homens e mulheres vão contando suas histórias mundanas.
Origem da foto: Foto de Alejandro camero na Unsplash
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