Crônicas

Luzes de neon

        A tarde segue fria e encara a noite da cidade que se ilumina. Luzes de neon brilham nas fachadas dos cinemas, e as suas luzes insípidas invadem os ambientes, e os postes transmitem para o solo uma luminosidade pálida e constante. A beleza de uma cidade iluminada, ao longe, para um céu que escorre pelo chão, é limitada pela escuridão das periferias, envolvendo aquele pequeno universo. Desde uma pequena cidade até uma grande metrópole, a luz é a identidade da noite; sem ela somente a lua cheia, quando está disponível, é capaz de iluminá-la.
       Mas a luz de neon é fria como a noite que se recolhe nas calçadas e nos becos. Ela não traz o calor dos primeiros encontros e nem a profusão de sentimentos duvidosos que pululam pelas calçadas.
        Uma luz de neon não transmite as formas nem enobrece as cores. Ela é a pasteurização do nada, fazendo com que pessoas e objetos sejam meros fantasmas a vagar pelo calçamento. Os carros iluminam as avenidas como gatos apressados, com seus vários feitios de olhos. No meio deles, alguns mais antigos ainda exibem seus olhares amarelos, como pequenos sóis que insistem em varar a escuridão.
        Luzes de neon são maquiagens ou disfarces, imitadoras de uma luminosidade mais acessível. Nada é mais belo que uma cidade à noite, quando se reflete na luz amarelada, mas não na palidez da luz indiferente.
       Luzes de neon são capazes de disfarçar o que é feio e, ao mesmo tempo, de esconder o que é belo. Diante de uma luz que projeta sombras e mostra rostos insípidos, as luzes de neon mostram uma falsa riqueza, uma maneira de mostrar a vida como ela não é. As luzes de neon são arremedos de luzes reais, como luas artificiais que não conseguem romantizar os amantes, nem dar às cidades uma luz que as identifique; as luzes de neon plastificam o mundo e descartam a beleza natural da noite.
       Luzes de neon são o caos organizado, são cidades fantasmas sem serem mortas e entregues à fadiga da ausência de auroras. Quando as luzes de neon piscam, fazem o mundo se transformar em fotolitos de filmes, com seu piscar irritante, como se insistissem em permanecer para perpetuar o muro que impede o céu.
     As luzes de neon deixam os postes e passam a guiar os caminhos das pessoas, grudadas nas pequenas telas azuladas dos celulares, como velas que guiam viajantes desavisados no meio de estrelas claudicantes. Luzes de neon são pequenos objetos hipnóticos que transitam entre os dedos. Felizes daqueles que se libertam do artificial para tentar enxergar o real. Porque a realidade não é feita de artifícios, nem mesmo a mais brilhante luz artificial pode reproduzir o branco da pureza. Luzes de neon são artifícios humanos para ludibriar a noite, são a ausência dos insetos que já não moram nas cidades, que insistem em permanecer insípidas e sem cor, tentando se imaginar perfeitas, pela total indiferença ao mundo, e não passam de projetos de amor.

Origem da foto: Foto de Leonie Zettl na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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