Fio da navalha
Todos nós temos um limite de tolerância. Inclusive, existe um pensamento de que o intolerante deveria ser tratado com intolerância, tendo em vista que o limite também existe para tolerar o intolerante. É claro que existem as divergências de opiniões, tendo em vista a visão que cada um tem sobre a vida, os comportamentos, os conceitos religiosos ou políticos. Muitas vezes, as argumentações que extrapolam o nível de educação e urbanidade geram violentos embates, chegando às agressões verbais e, até mesmo, físicas.
Muitas pessoas podem utilizar os argumentos físicos quando estão diante de argumentos irrefutáveis. Uma parte delas não tem a menor vontade de estabelecer diálogos, porque a convicção é maior do que os fatos, documentos ou qualquer outra coisa.
Não vivemos momentos de calmaria, porque nossos momentos são de imposição de ideias de uma maneira ou de outra. No caso, existem os dois lados da questão: aquele que agride com palavras violentas e aquele que sofre a agressão. Não vamos estabelecer nenhum tipo de elitismo intelectual. Mas é fato sabido que os discursos violentos são eivados de desconhecimento total sobre história, ciência e mesmo religião. Alteram-se conceitos e se dão interpretações estranhas para textos outrora claros e precisos. Além disso, o uso do anacronismo, ou a alteração da história, trazendo fatos passados para o presente, distorcendo a realidade, é a tônica dos discursos violentos.
Mesmo a distância não é capaz de eliminar a dor ou o sofrimento daqueles que são agredidos. E dois seres vivem, assim, no fio da navalha, no ponto-limite para as tragédias.
Em tempos de internet, as agressões são feitas de forma conjugada, com grupos atuando para combater um “inimigo” que não passa, às vezes, de uma pessoa comum que expõe suas ideias. Ainda que se possa usar a lógica e argumentos, a importância está na eliminação virtual do outro. A questão não é elaborar teorias conspiratórias acerca de um grupo ou de uma pessoa para atingir a sociedade, mas envolve o convencimento, criando “soldados” anônimos se responsabilizando por transformar as palavras de líderes em ações. O deságue do discurso violento está na sua capacidade de espalhar convicções que se transformarão em fatos.
As condenações ou a destruição de reputações têm uma coordenação oriunda do discurso violento. Apesar disso, não se trata de um ato aleatório, mas de uma organização de grupos invadindo o espaço alheio.
O perdão é o único sentimento capaz de bloquear os discursos. Mas a pergunta seria: é possível perdoar aquele que causa danos físicos, morais, patrimoniais ou psicológicos?
Por outro lado, o debate tem os seus dois lados. Porque com a mesma força com que se agride, pode ser também a força de contenção do agredido em não responder. E talvez o silêncio seja a arma mais poderosa para calar os discursos violentos, ainda que se caminhe no fio da navalha.
Origem da foto: Foto de Aron Visuals na Unsplash
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