Crônicas

Leveza

         Entramos na vida com o cérebro vazio de preocupações e, ao longo da vida, vamos construindo castelos de sonhos com nossas ambições, e também de ruínas com nossas frustrações. Talvez o silêncio seja o companheiro da leveza. Mas a pergunta seria como podemos ficar em silêncio diante de tanta amargura que vivemos à nossa volta? Por momentos nos sentimos responsáveis por um mundo que nós não criamos e não imaginamos. Cada um de nós tem uma ideia de mundo, e essa discussão não contribui em nada para torná-lo mais leve. Somos os próprios destruidores da nossa leveza.
         O que nos pesa tanto e como nos libertar deste peso?
      O homem é um ser solitário. Dentro de nós habitam os fantasmas dos nossos medos e falhas, e dentro de nós habitam os anjos da esperança por dias melhores. Nada dessa batalha pode representar algo leve. Um combate é sempre combate, e as cinzas e os escombros das batalhas se acumulam com pesos impossíveis de se “jogar fora”. Se pudéssemos reciclar ou descartá-los, nossa vida seria mais leve e fácil de levar.
       Desprender-se das coisas materiais seria um princípio básico para tornar nossa vida mais leve. No entanto, são com elas que conseguimos sobreviver em um mundo caótico e materialista. O segredo seria encontrar um balanço entre a necessidade e a vontade de sentir um pouquinho do gosto da liberdade. Embora a sua totalidade seja impossível de conquistar.
        Se dependemos de alguém para sobreviver, de alguma maneira, essa âncora social nos obriga a procedimentos e condutas incompatíveis com a leveza que desejamos. A solidão e se ausentar do mundo tornam a leveza impossível de atingir. Portanto, a leveza começa com esse desgarrar do mundo, um tipo de alienação em busca da leveza mental. Sair ileso desse bombardeio de comportamentos é a primeira missão.
       Olhar para dentro de nós mesmos seria um exercício importante como ouvir mais, não dizer o que se pensa, evitando o embate inútil de opiniões. Procurar assuntos leves e irrelevantes, e ao menor sinal de uma possível desavença, calar e olhar para dentro de si mesmo, buscando na leveza interior e no seu silêncio o refúgio contra o embate que se aproxima.
      Esse processo é desafiador. Acordar pela manhã e cuidar de cada minuto que se aproxima, escolhendo as palavras e pensando duas ou mais vezes antes de demonstrar descontentamento ou impaciência. A paciência é a parceira da leveza. Perceber no semblante do outro a proximidade da batalha e evitá-la.
       Olhar a natureza e seus movimentos fazem parte do exercício da leveza. Ver como ela flutua nos céus com suas nuvens ou chora com suas lágrimas de chuva, e passar seu tempo sem se importar com o que nós, humanos, fazemos. A natureza é. Logo, outro exercício da leveza é ser o que é, escondido em seu interior, não importa o que outros pensem. A natureza age, ela não discute.
      O silêncio, a paciência e o orgulho de ser são os ingredientes da leveza. Exercê-los é manter longe de nós aqueles que carregam dentro de si um peso. Muitas vezes ou na maioria das vezes um peso semelhante ao nosso. O que nos torna mais leves é saber isolá-los de nós: o nosso peso e o peso dos outros que nos afetam.

Origem da foto: Foto de Skye Studios na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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