Crônicas

Legados e fantasias

         Em nossa curta passagem pela terra – isso eu considero curta, tendo em vista o grande espaço permitido à eternidade – deixamos algum legado, queiramos ou não. O que fizemos, de todas as formas, causa alguma influência em alguém ou pode modificar o cotidiano das pessoas.  Afinal, nós interagimos com elas e aprendemos e ensinamos maneiras de agir; até mesmo os atos insanos ou errados ensinaram a alguém o que não se deve fazer. O que fazer pertence a cada um e obedece aos seus juízos.
         Somos sempre ex-alguma coisa. Ex-amante, ex-amigo, até ex-inimigo ou ex-colega de trabalho, enfim, muitos ex. Isso significa que influenciamos ou fomos influenciados por alguém, pelas circunstâncias ou pelas lembranças.
        Legado é algo muito importante, porque deixamos lembranças através das nossas palavras, nossos atos engraçados, crises de raiva, contendas ou expressões de apreço. Somos um baú de coisas que se misturam e fazem essa salada saborosa do viver.
        Mas, nesse legado, nós temos que falar das nossas ex-coisas, que significam uma passagem entre a memória e o presente. Nos deixaram marcas e se tornaram cicatrizes fechadas e encerradas e revistas sem saudades, ou se tornam algo não cicatrizado e cheio de rancores, arrependimentos e amarguras. São fantasmas que retornam e nos assombram, mesmo que declaremos que são águas passadas e não nos interessam mais. Legados são ligações sentimentais muito fortes e afetam nosso dia a dia e também o nosso discernimento sobre as coisas.  Influem em nossas decisões, nossos futuros amores e se tornam fontes de aprendizagem.
        Rever pessoas ou mesmo ter um déjà-vu nos traz um sentimento de coisas vividas intensamente. Nosso diálogo com o passado pode ser um pesadelo ou o momento de reviver um sonho perdido no tempo. Fica aquela vontade de reconectar os vínculos, vindos de cheiros distantes, um sabor inigualável de momentos que vivemos quando crianças que se tornam portos seguros, zonas de conforto para nossos infortúnios.
         Esse processo requer muita força para entender que a vida seguiu em frente  em que as pessoas encontrarão seus próprios caminhos e a paisagem já não será a mesma. Existe algo de intangível quando miramos os nossos e as nossas ex-qualquer coisas e enxergamos o passado e nunca o presente. Nosso imaginário é povoado de ex-coisas que exploram nossos sentimentos ao limite.
         O legado é, antes de tudo, um confronto com o passado. Nós olhamos para nossas ex-coisas e imaginamos os esforços que fizemos para sair de algum lugar que nos traz más recordações ou relações tóxicas. Esses referenciais moldam nossas personalidades e nos fazem crescer e amadurecer as ideias futuras.
         Nossa imaginação é um álbum de fotografias que ora estão desarrumadas ou encadeadas. Brincar com nossas ex-coisas pode nos traumatizar, porque não se transformam de limões em limonadas.
         Nossas ex-coisas provam que nunca saímos tranquilos de relacionamentos, sejam profissionais, de amizades ou amorosos. Marcas e cicatrizes são importantes. Eliminá-las ou fechá-las é um processo longo, que exige encontrar mais ex futuras coisas para continuar vivendo e aprendendo.

Origem da foto: Foto de Laura Fuhrman na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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