Ditadura do clique
A igualdade foi definida em Atenas com a palavra “isegoria”, que tem o mesmo nome em nossa língua. Ela significa o direito à liberdade de expressão em um local público ou em uma assembleia. Claro que a liberdade de expressão é um tema recorrente hoje em dia. Todos arvoram o direito a se expressar livremente. Um ditador africano disse, uma vez, que garantiria a liberdade de expressão, mas não a liberdade, depois da expressão (Id Amin Dada). Depois disso é melhor calar a boca mesmo.
Muitos clamam por igualdade e, no entanto, é uma igualdade relativa, assim como as democracias que têm hoje uma certa relatividade. Para tudo, afinal, há um limite, mas um limite balizado pelo bom senso, ainda que cada um tenha o seu “bom senso”. E a questão é como equalizar essa igualdade diante de tantas opiniões diferentes.
Em uma sociedade de surdos, todos podem falar o que quiser, mas não está garantida a possibilidade de ser ouvido. Imaginamos, assim, uma sociedade em que todos berram e ninguém tem razão.
Há também os casos daqueles que lutam pela “nossa” liberdade para poder tolher a liberdade do outro, sendo essa uma das consequências da falta de limites. Afinal, temos o direito de falar o que quisermos, sem sofrer as consequências?
Imagino que esses limites estejam bem próximos da boa educação, da polidez no trato e no respeito ao espaço do outro. Nas redes sociais, o número de cliques determina a solidão do emissor da mensagem. Afinal, disse o que queria e ninguém ligou para ele, a menos que ele diga algo completamente absurdo. Nesse momento, as alas entram em confronto para defender ou atacar o emissor da mensagem.
Nos primórdios da Grécia, dentro de uma visão clássica de democracia, o direito do camponês seria o mesmo do mais rico. O tempo era o mesmo para cada um expor suas ideias de como organizar a cidade. No mundo virtual, concorrem aqueles que tentam estabelecer um mínimo de diálogo e aqueles que tentam desorganizar o debate, e ainda os que assistem e se divertem com o diálogo de surdos, com argumentos que beiram os limites do absurdo.
As expressões vivem alegremente curtindo as suas liberdades, até o momento em que elas atingem as páginas da lei, e aí a coisa passa a ser a falta da liberdade, depois de expressões que passaram da conta.
Hoje, os algoritmos ditam o ritmo das expressões. Há uma censura feita pelos responsáveis, mas, ao mesmo tempo, há uma certa liberalidade em alguns itens. É possível, assim, controlar essas expressões, dando liberdades para algumas e tolhendo as possibilidades de outras: tudo determinado por uma certa ditadura dos cliques e views.
Temos muitos palanques para expor nossas opiniões, desde os comentários em posts alheios, quanto à possibilidade de abrir palanque próprio para expô-las.
Depois das expressões, as liberdades não são garantidas, principalmente aquelas que atingem a honra alheia e confrontam a lei. No caso, quando aplicada, os punidos falarão dos seus direitos de falar o que se quer, afinal, o outro pode se defender usando as mesmas armas, porém sem compartilhar o mesmo espaço. A questão é: por que me defender de algo que não fiz? O assassinato de reputações está solto por aí. Salve-se quem puder se defender, filtrar as expressões ditas no momento do debate, na hora que elas se julgam livres.
Origem da foto: Foto de NITISH GOSWAMI na Unsplash
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