Crônicas

Incêndio e cinzas

        Vemos uma fumaça se elevar para o céu e, pela sua cor mais clara ou escura, podemos deduzir a natureza do fogo. A cor pode significar a queima de material da natureza ou algo tóxico proveniente de materiais perigosos. Pela sua intensidade, podemos também definir a extensão e o grau do estrago.
          Vendo ao longe uma fumaça se erguer, alguém pode temer que a tragédia esteja acontecendo em algum lugar familiar. Pode ser também as consequências de uma guerra, de um combate duro mais à frente.
          Não importam as imagens que a fumaça pode trazer, o resultado será cinzas e destruição, assim como nossas palavras que podem, também, causar estragos e, pela intensidade, agravar algum quadro de instabilidade. O resultado será caótico e podemos defini-lo como cinzas de um combate.
       O fogo tem um tipo de atração que perdura em nossas memórias, talvez dos nossos ancestrais que se reuniam em torno dele para decidir a sorte da comunidade. Também pode significar comida sendo preparada ou para aquecer os corpos contra o frio na hora de dormir. Ele também serve para afugentar animais que possam nos atacar no meio de uma área selvagem.
         Mas um incêndio tem consequências colossais, tanto na parte física como na parte emocional. Imaginemos que as paixões tenham essa dimensão de colosso quando arrebatam nossos corpos e almas, algumas vezes deixando as marcas do incêndio, do fogo apaixonado que não se apaga. Mas as paixões também deixam cinzas quando arrefecem ou morrem ou se tornam aquele fogo lento que deixamos consumir aos poucos e vamos saboreando ou nos mortificando através do tempo.
        Uma discussão sob o calor das emoções é capaz de causar problemas, levar às tristezas e às decepções, como um incêndio que explode instantaneamente e é impossível controlar. Sob o efeito das emoções, provocamos um incêndio de palavras que, cada vez mais, alimenta esse fogo incontrolável de viver e conviver com diferenças.
        Um incêndio é um fogo sem controle, algo acima das nossas possibilidades, causado pela imperícia ou pela irresponsabilidade. Um amor é um incêndio sem controle, sob o qual não podemos controlar o coração, que cada vez mais pede lastro para consumir nossos corpos.
        As sociedades se inflamam movidas por suas ideias que se espalham como rastilho e são incontroláveis. Uma revolução, uma notícia falsa, uma difamação são incêndios movidos pelo ódio, pela raiva, por esse ímpeto de mudar tudo o que se vive. Contra ditaduras, as populações se tornam incontroláveis, como o fogo que não pode mais ser contido.
       Mas uma ideia é um incêndio que acontece na cabeça do artista, quando uma luz súbita se instala e ele sorri satisfeito porque sua obra pode consumir corações e mentes. O artista move mundos para conseguir colocar em um papel inflamável uma arte que será consumida e nunca se tornará cinzas.
         Enfim, o fogo, alma criadora do incêndio, caminha nessa dualidade de sentimentos. Ele será cinzas como lembrança, para recordar o tamanho e a grandeza do incontrolável.

Origem da foto:  Foto de Cullan Smith na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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