Homem solitário
Já escrevi, muitas vezes, sob este aspecto dos silêncios. E o comparo à solidão. Solidão e silêncio são sinônimos porque encerram a ausência do dizer e a não necessidade de expressar. Somente os olhos e ouvidos são os sentinelas atentos de tudo o que acontece ao redor.
Ao ver um ser solitário, mesmo de longe, podemos nos perguntar se se trata de alguém pronto a abater sua vítima ou ser alguém que tem as respostas para as nossas questões. Um solitário pode ser endeusado ou temido por sua doçura ou ferocidade.
Deus, podemos dizer, seria alguém solitário, cercado de seu poder imenso e não tendo mais nenhum deus para compartilhar suas angústias e seus erros. Quem sabe? O poder tem essa essência da solidão.
Olhar de algum lugar mais alto, mirando ao redor como dono e senhor, traz uma solidão aterradora, porque todos estão prontos para ouvir o que aquele ser, desde o seu Olimpo, pode dizer em termos de responsabilidade ou ferocidade. Da mesma forma, alguém poderoso trama contra si e contra todos. São deuses opostos, mas únicos na solidão.
Somos solitários desde o dia em que nascemos. Estamos presos dentro dos nossos próprios pensamentos, envolvidos pelos fantasmas que criamos durante nossa existência e levamos para o outro lado toda essa solidão, traduzida em segredos que nunca serão conhecidos, depois que saímos da vida.
Ser solitário tem os dois lados da moeda, do sofrimento ao contentamento.
Nossa imaginação é a dona dos nossos pensamentos ou a tradução dos nossos desejos. É na imaginação que traçamos os princípios das coisas que amamos e os objetos dos nossos desejos. É na solidão dos pensamentos que traçamos as vinganças e nos preparamos para as vitórias.
Das nossas solidões podemos construir nossos sonhos e tentar realizá-los. Das nossas solidões podemos esconder nossos desejos mais mesquinhos e que nunca vamos mostrar para ninguém, porque, nas nossas solidões, aprendemos a pesar o que é bom ou ruim para nós e para os outros.
Das nossas solidões podemos chorar nossas derrotas, lamber nossas feridas e deixar guardadas para o mundo as nossas desesperanças. Essas solidões precisam dos sorrisos nas faces para transmitir ao mundo a ideia de que suportamos os sofrimentos. E podemos fingir nossos choros para conseguir nossos intentos, e o fingimento é outra faceta da solidão.
Um homem solitário não se teme, se respeita. Cabe ao homem solitário dar o tom das coisas. Mas nada que um homem solitário faça será impossível de ser barrado pelo olhar que ele transmite, e como vê as coisas.
Origem da foto: Foto de Matthew Henry na Unsplash
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