Crônicas

Gritos no silêncio

        Algumas vezes, nesta vida, temos a sensação de estar em um buraco bem fundo, onde ninguém pode ouvir a nossa voz ou prestar um socorro. Eu sei que a imagem parece bem forte. Estou, no entanto, tentando descrever essa sensação de isolamento que sentimos, mesmo no meio de uma multidão: a metáfora é sufocante. Pois a ideia seria de um grito, mesmo silencioso, vindo da alma e a sensação de que ninguém está disposto a nos ajudar.
       No meio do caos urbano, se pararmos para olhar as pessoas, podemos ver nos olhos de alguns uma certa angústia ou ansiedade. E quantos problemas habitam as mentes que passam e nem sequer temos um olhar de curiosidade, tentando entender aqueles problemas? São gritos silenciosos que caminham no meio dos olhares, pequenos encontros de ombros, e a massa anônima continua seu caminho para chegar, cada qual, ao seu destino configurado. Podem ser pessoas que acabaram de ser demitidas de seus empregos, ou aqueles que lutam contra uma burocracia que impede que suas vidas continuem, um olhar perdido depois de receber algum diagnóstico negativo ou a desilusão amorosa que acaba de romper um sonho.
        Claro que podemos dizer, com segurança, que alguns olhares podem ser de alegrias e de vitórias, boas notícias, esperanças renovadas, etc., que podem ser de pessoas que gritam silenciosamente sobre esses mesmos eventos.
 

A AUDIÇÃO DA ALMA: COMO A EMPATIA NOS CONECTA AOS SOFRIMENTOS INVISÍVEIS

       Mas os gritos silenciosos pertencem ao primeiro grupo, sem dúvida. E é sobre esses gritos que vagam sem assistência que vamos falar um pouco.
         Um corpo cai na rua e uma multidão o socorre; uma questão de humanidade, é claro. Porém, muitas vezes, passamos por seres humanos largados nas calçadas, com seus olhares de desesperança, de pedidos silenciosos diante dos nossos olhares indiferentes. Eles não precisam gritar em alto e bom som aquilo que passam, e sabemos disso, mesmo que não ouçamos esses gritos silenciosos. A vida parece e é uma competição ingrata, onde os perdedores estão inertes no cimento das ruas e alguns, ainda moribundos, ainda permanecem na multidão e também gritam silenciosamente.
       A decisão também grita no momento de decidir a vida. Um simples estudante e a sua dúvida que não é sanada pelo professor que o ignora, ou até mesmo pela sua timidez se recolhe e sufoca um grito de socorro. No trabalho, o funcionário da empresa tem que tomar uma decisão sobre a qual não tem segurança, olha em volta e os seus outros colegas, ocupados, não lhe dão a devida atenção. Todos estão diante de uma força que age em contrário, que impede de continuar a vida, de configurar o futuro e ver a possibilidade de tudo ruir, simplesmente porque um pedido de ajuda não é atendido.
         E, finalmente, aquele amor que deixa de existir, que não desaba em um choro convulsivo porque é um sentimento de fraqueza. A força que se tenta extrair de si mesmo torna o grito uma necessidade de extravasar e de se indignar.
         O grito silencioso revela a vulnerabilidade do ser humano diante do infortúnio, da solidão e do abandono. Muitos estão vulneráveis, mas não revelam, não gritam e sufocam as suas vontades. O ser humano que não consegue se identificar com o seu gênero mantém uma identidade que não é sua, mas não pode gritar e atrair preconceitos. O racismo provoca esse grito silencioso em alguns que não podem mostrar sua igualdade ou seus direitos. A mãe que perde seu filho e passará a viver sozinha, os filhos que vão depender de outras famílias depois de estarem também sozinhos, por exemplo. 
          Empatia é a palavra perfeita para recuperar nossa audição diante desses gritos silenciosos.

Origem da foto Foto de Christopher Ott na Unsplash

SUBSCREVA PARA RECEBER NOVOS POSTS

#Empatia#SaúdeMental#GritosSilenciosos#Vulnerabilidade#Humanidade

Views: 10

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

Obrigado por curtir o post