Crônicas

Fluxo interrompido

         As ideias fluem pelo ar, como se um inconsciente coletivo pairasse como um objeto não identificado, buscando alguém que as capture e as transforme em fatos, ciência e inventos. Essa livre circulação se origina de alguém que, solitariamente, desenvolve sua ideia ou de várias pessoas que, mesmo distantes, trabalham em equipes. Não podem existir barreiras no conhecimento. Às vezes são barreiras políticas, quando governos autoritários ou resistentes a mudanças bloqueiam esse livre desenvolvimento. Outras formas são os dogmas ideológicos ou religiosos que impedem que sejam contestados, mesmo que as bases dos argumentos sejam irrefutáveis. A livre circulação de ideias não pode se chocar com os fatos e a realidade.
         Poderíamos dizer que as ideias interrompem seu fluxo, provocadas por uma coagulação, por uma paralisação, causadas pelo medo da perda de poder. As ideias devem circular pela sociedade como o fluxo sanguíneo que pede passagem para alimentar os órgãos de um corpo.
          Toda coagulação, portanto, é uma metáfora para uma sociedade que interrompe seu fluxo e se torna cada vez mais fraca em relação a outras.
      O conhecimento e a livre discussão de ideias encerram uma beleza, um maravilhoso nascimento do novo, que desafia o velho, como um corpo que se renova todos os dias e espanta a coagulação.
         As ideias circulam no meio universitário, onde a livre expressão, no sentido da discussão adulta do conhecimento, se torna um gueto de resistência ao antagonismo perverso da ignorância. Por isso, o primeiro baluarte a ser atacado por governos autoritários é a universidade. Ao mesmo tempo que atacá-la, sendo uma prova de ignorância, é também um ataque ao próprio corpo da sociedade, que necessita dela, a universidade, para crescer e desenvolver ela mesma.
        Se estabelecermos a ideia como a preservação da memória, deletá-la não significa retornar ao fluxo, é interrompê-lo. A memória significa ideia acumulada, não no sentido de interromper o fluxo, mas como uma reserva de vitaminas para ser utilizada no futuro. É como um depósito onde recolhemos todo o conhecimento, inclusive o conhecimento dos ataques que as ideias sofrem.  Cabem aos entes envolvidos na manutenção e preservação do corpo social impedir que a memória se destrua, ou seja, utilizada para fins desconhecidos. Impedir a memória é endurecer os espaços por onde fluem as ideias.
          As ideias, enfim, são o motor que desenvolve a sociedade, sejam elas estapafúrdias ou não, retrógradas ou vanguardistas; as ideias evoluem através do embate entre aqueles que amam a arte de idealizar, imaginar e conceber novos futuros.
        É claro que a ignorância, no sentido do temor pela perda de poder, incentiva que ideias sejam manipuladas e deturpadas. Interromper o fluxo do conhecimento é a maneira de paralisar o mundo e mantê-lo sob tutela. Para aqueles que alcançam o poder, mesmo que esse poder, financeiro ou político, tenha chegado ao patamar superior, a partir de ideias, o grande temor é uma nova ideia surgir.
          O paradoxo é que, depois de se beneficiar de um fluxo de ideias, aqueles que têm o poder se tornam os inimigos do próprio fluxo.

Origem da foto: Foto de oğuz can na Unsplash

SUBSCREVA PARA RECEBER NOVOS POSTS

Views: 3

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

Obrigado por curtir o post