Crônicas

Faces da violência

         No âmbito externo, as violências se tornam visíveis e a sociedade encontra algumas formas de defesa, como no bar, onde a mulher, ao se sentir coagida, pede um determinado drinque com o nome sugestivo de Maria da Penha, ou é socorrida por populares ou pela polícia.
      No âmbito interno, dentro do lar, supostamente um lugar de proteção, é que essa violência adquire formas contundentes, exercidas sob a coação, descobertas nos olhares baixos e nos comportamentos furtivos, nas roupas demasiadamente cobertas sobre o corpo: é a violência silenciosa.
        Neste ambiente, a violência ou as violências se consumam, nem sempre do homem sobre a mulher, mas dele também sobre os filhos, do próprio casal sobre os filhos e da mulher sobre eles.  Violência nem sempre se manifesta no aspecto físico. Existem violências outras que são exercidas sob uma pressão psicológica, encobertas por palavras suaves, de suaves impedimentos, de falsos alertas de perigos inexistentes, que amedrontam, que inibem o outro a poder exercer seu modo de viver: são casais que se sabotam.
        Sofremos violências à guisa de supostos chamados a responsabilidades, quando casais se mantêm unidos porque os filhos têm uma dependência muito grande, quando mulheres e também homens não conseguem acordar no sentido de poderem viver suas próprias vidas, porque a responsabilidade de manter o lar unido prevalece.
         A palavra violência tem muitos significados, e todos são prejudiciais de uma forma ou de outra. Somos todos violentos e somos, ao mesmo tempo, violentados.
      A maior violência é não existir um porto seguro para onde possamos voltar depois de um dia de trabalho, muitas vezes frustrantes. A maior violência é não ter um lar para voltar, é não encontrar sorrisos a receber, um beijo carinhoso e braços abertos na espera.
       Nem sempre uma boa conversa resolve o problema da violência, mas muitas conversas violentas, mesmo nas suas sutilezas e ironias, poderiam ser resolvidas se se tornassem uma boa conversa.
      Sim. A violência familiar e doméstica é terrível e está presente em todos os lares, nas suas mais diversas formas. Ela já é violenta quando sentimos que o nosso lar não é mais nosso, quando escondemos nossas frustrações, não dizemos, não verbalizamos o que queremos. Essa boa conversa não desfaz a violência física, mas pode desfazer conflitos íntimos.
       A violência está no exercício do poder, geralmente quando o mais fraco não encontra argumentos para uma boa conversa e parte para a extinção moral do outro.
       Condenamos a violência doméstica e nem sempre fazemos uma crítica sobre a violência que fazemos sutilmente.
       Condenemos, denunciemos, sim, mas, principalmente, devemos sempre avaliar a nós mesmos.

Origem da foto: Foto de Nadine E na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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