E se você achasse algo perdido?
Você está em sua casa, tranquilo, e recebe um surpreendente telefonema de uma autoridade sobre a recuperação de um veículo que lhe foi roubado vinte e oito anos atrás. O que você sentiria, tendo em vista, por hipótese, que não tenha feito seguro, e considerado o caso como perdido?
Qual será a sua emoção ao sentar no banco do carro depois de todo esse tempo? Terá revivido a sua vida, pelos percalços que o veículo passou longe da sua companhia, quantas aventuras viveu e quantas cidades conheceu, estradas, pessoas, quantas conversas ouviu? Você procuraria traços de alguma coisa, uma marca, uma mancha qualquer? Ouviria vozes vindas do passado?
Seu carro é mais ou menos uma garrafa lançada no mar e recuperada tempos depois com todas as suas marcas. Recuperá-lo será mais do que ter uma raridade em casa, mas voltar no tempo.
Que objetos você desejaria ter recuperado? Não vale o amor perdido, porque o amor não se perdeu, ele foi embora porque quis. É sério! Esse negócio de amor perdido é uma lorota, pense bem! Mas lembraria de algumas peripécias ocorridas dentro do carro, talvez!
Que surpresa ao abrir uma velha mala de viagem e você encontrar o ticket do show que você assistiu, ou então a conta do hotel, ou mesmo nas gavetas, enfurnado lá embaixo na última gaveta um caderno com as anotações, um diário! Se perderia no tempo, recuperando aquelas coisas escritas no alvorecer da juventude? Riria? Choraria?
Somos acumuladores. Mas o melhor acúmulo é o surpreendente, como o carro que veio de volta para o futuro. E melhor ainda as lembranças guardadas na nossa nuvem virtual, sempre recorríveis e transformadas pela nossa imaginação.
Somos assim, mesmo não representados em folhas de papel, alguma lembrança perdida no meio da poeira, por trás de armários. Uma cápsula do tempo. E somos assim quando deitamos e lembramos de fatos ocorridos antes, há muito tempo.
Somos memórias, pedaços de tempo, construções de coisas, um tipo de Frankenstein do bem. É claro que as memórias ruins nós “esquecemos”, não são boas para lembrar.
Somos palimpsestos, coberturas de tempo sobre o tempo, aprendizes eternos sobre as histórias que vivemos.
Origem da foto: Foto de Auguras Pipiras na Unsplash
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