Crônicas

Dono do tempo

          Muito se fala sobre o tempo, o que é, como se conta, como se define. O que é o tempo? É possível ser o seu dono, como se ele fosse um objeto, alguma coisa que possa guardar no armário ou no fundo de uma gaveta? Podemos poupá-lo para usar no futuro e viver um pouco mais?
          O tempo é eterno, esse tempo que vai contando, infinitamente, os segundos e os minutos. Nós o inventamos e passamos a contá-lo, talvez, como uma forma de poder controlá-lo. Fazemos as coisas durante algum tempo determinado, como uma competição entre nós e ele. De quem chegaria mais rápido… até o final. O final do tempo é o final da nossa vida. O final do tempo é quando ela, a vida, acaba. E se nós contamos o tempo, caso interrompamos essa contagem, ele deixa de existir?
           O tempo é eterno, ou como disse Nietzsche, o tempo é o retorno do próprio tempo.
          Em alguns momentos de nossas vidas, vivendo um bom momento, a vontade é que ele se eternize, e que ele seja eterno enquanto dure, como disse Vinícius de Moraes. E nos maus momentos, nosso desejo é que ele termine para que nossas angústias terminem com ele. Na verdade, os dois tempos são os mesmos, apenas os bons momentos parecem curtos e os maus longos demais.
        Ser dono do tempo é uma maneira de criar bons momentos para que esse tempo se torne o mais longo possível, guardadas as sucessividades dos bons momentos. Logo, para ser dono do tempo é importante fugir, quando possível, de tudo aquilo que nos faz mal. Algumas vezes é impossível, porque a impossibilidade da vida é o próprio sentido dela. Na luta, as impossibilidades estão no ringue, e lutar é o seu sentido.
         O tempo não acaba, nós acabamos o nosso tempo. Se pensarmos em outra vida, o tempo aqui não faz sentido de viver, é apenas aguardar o ponto final que virá para viver um outro tempo. E nesse tempo, o tempo existirá? Porque se há uma eternidade, qual o sentido do tempo nela? Como dito anteriormente, a eternidade do tempo está nos maus momentos que vivemos nesta vida, porque os bons momentos são curtos.
        Como ser o dono do tempo? Somente em um sentido material, à medida que podemos vender nosso tempo para aumentar o tempo de outros. Viveremos maus momentos, porque muitas vezes não vamos fazer o que gostamos para vender nosso tempo e proporcionar bons momentos para outros. Para os que vivem esses bons momentos, eles sim são donos e compradores do tempo.
         Qual a solução? Não há sentido em procurar solução para um áporo. Porque não há sentido em procurar explicação sobre a ação do tempo. O tempo age em nós, transformando o nosso rosto, aparecendo as rugas e a perda da vitalidade. O tempo é mau quando nossa perspectiva de futuro é nula; o tempo é bom quando vivemos a vida, simplesmente, sem as causas da infelicidade. O dono do tempo é aquele que pode fazer do seu tempo o que quiser. E não vendê-lo estraga a vida de muitos que se acham donos do tempo.

Origem da foto: Foto de Shelby Bauman na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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