Crônicas

Diagnóstico do tempo

          Não há dúvidas sobre o tempo, como um senhor acima de todos nós, comandando, desfazendo ou tornando real aquilo que temos na mente. Sendo o tempo esse senhor da razão, por mais que cometamos erros, ele sempre vai nos dar a lição precisa sobre as nossas decisões. Aprendemos com o tempo e ele nos ensina muita coisa. O quanto acumulamos de experiências de vida e, com elas, podemos consultar um ou outro caso vivido, aplicável a determinadas situações com que vamos convivendo ao longo da vida.
         Comparamos o tempo a um balcão de recepção onde esperamos, pacientemente, que chegue a nossa vez para poder experimentar aquilo que desejamos. Este senhor empedernido, e longe de ser convencido, nos espera para nos diagnosticar. Ele define as nossas expectativas e nos limita quando ele quer. Não há como contestá-lo e apontar seus erros. Ele, simplesmente, nos dirá, como um terapeuta cruel, que as decisões levam tempo para se tornarem realidades e não há como mudar isso.
        Em realidade, esse senhor temporal não nos diz o que fazer. Ele é paciente e diligente e segue seu rumo sem apontar lugar algum. Se permanecemos parados, ele continua a seguir o seu caminho e, por certo, apontará a perda de si mesmo, e não adiantará reclamar de algum bônus, diante do cansaço da jornada. Ele também é autoritário e decide que as coisas são assim; e não há nada para explicar.
         Dentro das paredes brancas de um consultório, nós aguardamos o diagnóstico sobre a nossa saúde e uma explicação para algum mal que nos aflige. Além disso, de um médico aguardamos alguma resposta, de um terapeuta algum conselho e de um profissional a melhor maneira de lidar com um problema técnico. No entanto, quando consultamos o tempo, fazemos coisas fora dele como tentar prevê-lo e estabelecer um diagnóstico sobre ele. Devemos pensar que é uma grande pretensão imaginar que o tempo possa fazer o papel do paciente e deixar que nós estabeleçamos as regras, em lugar dele, e o senhor da situação.
       Mas existe uma maneira de driblar esse autoritarismo temporal e a resposta estaria nas perguntas que fazemos a nós mesmos. Nos interrogarmos é uma demonstração de independência. Como seria se não seguíssemos uma rotina e fôssemos autônomos e decidíssemos como usaríamos o nosso tempo, não como um bem, mas como um remédio para nossos males? Auscultar os sentimentos internos, sem que isso se transforme em uma batalha entre o bem e o mal, seria uma terapia pessoal e totalmente amigável.
         Refazer nossos passos, como se fosse uma anamnese, seria o primeiro passo para sacramentar a nossa independência. Se a vida nos leva, o tempo se torna um aliado para que não tomemos nenhuma decisão. Para ele, o tempo, pouco importa o que fazemos dele. Para ele, a ideia de chegar ao fim é a única saída que nos resta.
        O tempo não é um diagnóstico que determina as nossas vidas. Ainda que, por impedimentos físicos ou espirituais, não possamos seguir nossa jornada, existe uma maneira de driblar essa dependência, que é viver cada minuto e segundo das nossas vidas como se o tempo resolvesse interromper a jornada e nos abandonar, como um médico que desiste da medicação.

Origem da foto: Foto de Tati Visual na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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