Crônicas

(des)importância do “não”

          O “não” é uma palavra simbólica. Não é, simplesmente, uma palavra que significa negação, censura, lado obscuro ou antônimo do suave e cristalino. O “não” tem grande importância no nosso mundo social. Ele funciona como uma barreira, um aviso de censura aos homens para não se revoltarem diante de uma situação extrema ou não ultrapassarem certos requisitos sociais.
         “Não ultrapasse a faixa amarela” seria um aviso de barreira, de mão estendida e dedo apontado. Poderia ser dito que manter-se antes da faixa amarela deixará você mais seguro. “Não mates ou roubes” significa ser respeitoso com o próximo (foi assim que o mestre definiu como a humanidade deveria se conduzir). Até porque quem ama não mata.
        O “não” é importante para aqueles que desejam manter a sociedade no mesmo estado, porque mudar as regras poderia ser perigoso. Por outro lado, o “não” funciona, justamente, para quebrar essas regras. Mesmo que você se sinta inseguro, o “não” tem a função de demonstrar que algo poderá ficar pior, mas também pode ser o rompimento de uma redoma, dando passagem a outras possibilidades de vida. Quando dito, o “não” tem importância para alguém, pois aquilo que prejudica um grupo ou individualmente vai beneficiar alguém ou outro grupo mais acima.
        Ao mesmo tempo que se diz “não ultrapasse a faixa amarela”, poderia ser dito que “não passarão” é o mesmo que dizer “não mexa no meu lado da cerca, não avance”. Nesse caso, o “não” não é uma censura ou negação, ele é uma ameaça ou defesa: vento que venta lá também venta cá.
        O “não” é desimportante quando a voz que grita por ele merece o descrédito de todos. É a demonstração de alguém que tenta defender seu quinhão, que não aceita dividir, que preza o acúmulo em detrimento de muitos. Esses são os beneficiários pela negação de tudo.
      Negar alguma coisa, pregar a negação de algo, sob o pretexto do assustador futuro que advirá disso, são táticas antigas para conter aqueles que pedem passagem. O “não passarão” vale para ambos os lados.
       Não devemos desprezar o “não” quando nos beneficia e devemos atacar o “não” que nos tira algo, mesmo sob a capa do medo de que “se está funcionando bem assim, por que mudar?”.
      O “não” pode ser uma defesa contra o desejo, pode ser suave no dizer o que se quer. O “não” tem muitos significados, e o maior deles é que, se pronunciado, vale a pena investigar a sua origem, porque pode esconder aquilo que desejamos.

Origem da foto: Foto de Kai Pilger na Unsplash

SUBSCREVA PARA RECEBER NOVOS POSTS

#filosofiadonão #sociologiaecomportamento #opoderdanegação #quebrandoregras #ordemsocial #mudançaeresistência

Views: 0

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

Obrigado por curtir o post