Crônicas

Descarte necessário

        Vamos imaginar uma sociedade que decida fazer uma limpeza nas mentes, evaporando todos os pensamentos que levem à dubiedade, e adote um processo de dizer as coisas como são: o contato com a realidade. Isto pode se referir às escolhas das palavras, à maneira de dizer as coisas com clareza e sem duplo sentido.
       Não estou me referindo à abolição da censura, da tão falada liberdade de expressão, onde dizer tudo o que se pensa se confunde com a liberdade de ofender e agredir a quem quer que seja, sem punição ou constrangimento. Falo da questão de sanear a mente, de tornar a sanidade um mote comum para todos. Claro, devemos considerar o que entendemos por sanidade. Na minha opinião, seria o ensinamento do Mestre: amai o próximo como a ti mesmo.
       Pensamentos obsoletos, preconceitos enraizados, informações distorcidas com o intuito de ludibriar as pessoas e alcançar relevância no meio da ignorância e do desprezo. Como seria sanear a mente? Como seria uma sociedade sem nada disso?
    Libertar-se desses pensamentos, dessa poluição de crenças que nos limita, essa limpeza levaria ao crescimento pessoal e coletivo inimaginável.
       Em alguns momentos, podemos perceber que alguns indivíduos insistem em propagar coisas às quais não devem acreditar, e são eles os responsáveis por manter a sociedade emparedada. Ameaçam com desastres sociais, como o desemprego e o desamparo que levam o indivíduo a ter medo do futuro, como se toda a estrutura do capitalismo não dependesse, unicamente, de um processo de escravidão disfarçado. O capitalismo sobreviveria sem eles? Logo, como é sabido, é necessário manter uma reserva de mercado pronta para ocupar os postos, em um processo de renovação que mantém o sistema.
      Revisitar conceitos e descartar o desnecessário são processos recomendáveis para sanear as mentes. Essa é a verdadeira liberdade: a ausência do medo de mudar.
     O saneamento começa por pensamentos claros e precisos, longe dos preconceitos. Ressentimentos abandonados e competições sem sentido, além das notícias mentirosas sobre a sociedade e especificamente sobre indivíduos. Em um lado físico, a limpeza e a arrumação simples de uma casa ou quarto refletem um desejo de mudança mental e de desanuviação dos ambientes. Ver o limpo é imaginar o limpo como um todo, não a limpeza étnica.
      Muito falamos das energias negativas que rondam o ar. Logo, a limpeza de um rio, a organização do lixo, o desnecessário ímpeto por compras, o conserto de algo que não funciona, o descarte profissional tornam o saneamento externo refletir no interno. Sanear não é só limpar, tornar-se são, mas ver o limpo abre a cortina dos olhos para novos horizontes.
    Equilíbrio entre interesses ajuda a sanear o ambiente onde vivemos. Entretanto, sanear é um convite individual. Não é gostoso experimentar quando saneamos nossa mente, mudamos atitudes e vemos ao nosso redor o mundo tão bagunçado? Esta é a mágica do saneamento mental. Quando somos observadores do mundo e percebemos o quanto podemos nos afastar dele, sem nos deixar contaminar, nos deixar angustiados, mas, realmente, livres, para falar em liberdade.

Origem da foto: Foto de Noah Buscher na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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