Crônicas

Depois do topo

           Alguns encaram a vida como uma competição, tentando atingir o topo na carreira profissional, ser famoso por praticar algum tipo de arte, ou mesmo nos esportes, sendo o melhor de todos ou de todos os tempos. Nada de mal nisso. Afinal, quando fazemos o que amamos, o processo de ascensão é quase natural e dinâmico.
           O topo em uma carreira ou o auge também são divididos em alguns aspectos. Alguns medem seu auge pelo ganho financeiro, outros, simplesmente, pelo reconhecimento dos seus trabalhos. Ser um grande artista traz compensações financeiras, mas também a presença de fãs e seguidores que se identificam com aquilo que eles transmitem, seja na pintura, escultura, música ou como atores e atrizes, traz uma sensação de reconhecimento. De todas as maneiras, o ganho financeiro e o reconhecimento trazem satisfação.
         Quando se chega ao auge, depois de uma carreira de longos anos, ou quando esse auge é alcançado por um motivo fortuito, um ganho de oportunidade, por exemplo, nos traz uma reflexão sobre o que é o sucesso.
         Uma carreira construída ao longo da vida ou uma carreira meteórica encerram um cálculo muito importante que é a responsabilidade que cai no colo de cada um. Sem dúvida, uma carreira com um histórico de ascensão impõe ao seu criador uma dose de responsabilidade, de conhecimento do seu público e a forma de encontrar maneiras de sempre seguir uma trajetória, respeitando e levando as mensagens próprias ao grupo. Por outro lado, uma carreira meteórica não traz esse nível de relacionamento, talvez porque o seu criador não tenha tido tempo de assimilar esse sucesso.
       Mais do que atingir o auge é se manter nele. Muitas carreiras, muitas biografias acabam com um simples gesto, às vezes malvisto pelo público, e tudo o que foi construído se desfaz. Nos fenômenos viralizantes das redes sociais é comum ver influencers perderem todo um ganho a troco de alguma opinião ou comportamento que vão de encontro àquilo que sempre pregaram.
        Quando se atinge o topo, além da necessidade de se manter nele, é uma situação que traz a solidão. Não deve ser fácil manter uma dinâmica regular, quando vivemos em um mercado onde a novidade sempre será pedida pelo distinto público e pela existência mínima. Volátil, esse público pode, simplesmente, deixar de seguir para seguir outros. Vivemos uma sociedade de cansaço sobre as novidades. O público das redes precisa sempre saber coisas novas, ainda que venham com roupagem de coisa antiga.
        A sociedade do espetáculo que vivemos exige que as pessoas se mantenham no auge. Os algoritmos dominam as mentes e a necessidade de novos conteúdos para manter a plateia atenta é um processo gigantesco. As pessoas fazem as coisas mais estúpidas ou as mais degradantes em busca dos likes. Aparecem especialistas em qualquer coisa, até (e isso é o mais comum) sobre coisas que não conhecem: tudo em nome de permanecer no topo e centro de atenções generalizadas.
      Não existe o depois do topo. Após ele temos a queda, muitas vezes vertiginosa. O conceito de trabalho se tornou uma simples ocupação. Ocupar espaços e buscar a atenção para ser o trabalhador sem patrão. Uma fila imensa se constitui. Se você não está conectado, você não é nada. Mas o importante é que nem todos embarcam nessa correria. Talvez, esses estejam no topo, enquanto a grande maioria vê o mundo de cabeça para baixo.

Origem da foto Foto de Andris Eichler na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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