Crônicas

Cores do branco

     Um artista diante de uma tela em branco enxerga o enorme desafio que tem pela frente; dentro de sua mente, um mundo de cores e fantasias se remexe como em um caleidoscópio, e a tela em branco espera a chegada da imaginação. Entre os dois, existem o espaço imenso entre o que o artista vê e o tremendo desafio de transformar aquele cenário etéreo em realidade.
       Vivemos nossas vidas dentro desses espaços. Idealizamos uma vida de vitórias, com pensamentos perfeitos, e temos que preencher aquele espaço até o fato se tornar realidade. Essa luta no espaço se configura um desafio constante. Criar é a arte de preencher os espaços e a nossa existência consiste em ocupar os espaços, levados pelas oportunidades. Logo, o espaço é invisível na sua representação física, o que separa pessoas e coisas, e também é invisível quando não conseguimos preencher a necessidade do sonhador, que é transformar o sonho em realidade.
      Mas há momentos que essa tela em branco, que busca as cores para lhe dar vida, pode ser o espaço de um vazio existencial. Quando questionamos o mundo e tentamos compreendê-lo. É como alguém que tenta atravessar um rio para chegar até o outro lado.
       Temos os vazios deixados por uma paixão, por exemplo. Quando não somos mais correspondidos, a impressão que temos é que aquele espaço deixado, depois de criado pela ilusão e a vida de apaixonado, nunca mais poderá ser preenchido. A vida vai nos mostrar que não existe um espaço que não possa ser pleno e preenchido. Dois seres que se desiludem são espaços que se encontram para preencher os dois lados. Espaços são negações que a vida nos impõe, são as paradas para refazer o pensamento e organizar as estratégias futuras. Preencher espaços, colorir a tela em branco das nossas frustrações é um ato de coragem e força. Somente os pincéis dos artistas percebem a força de transformar vida em arte e arte em vida.
      Muitos, no entanto, preservam seus espaços pessoais, criando uma bolha para viver ou uma cerca que não deixam que outros se aproximem. Espaços podem ser, então, o medo de tentar e de insistir.
Espaços podem ser os momentos em que mostramos nossas gentilezas e vamos ganhar as cores de um sorriso de agradecimento para preencher a tela em branco do nosso dia. Espaços são nossos ombros ou nossos braços estendidos para receber alguém que vem de longe. São nossas vozes de apoio para fortalecer alguém que se sente inseguro. Espaços são as salas virtuais que recebem nossos sentimentos e onde encontramos as palavras para confortar alguém.
         Nada como a distância por longo tempo, que preserva um espaço onde um abraço vai unir dois seres distantes. Espaços são os motivos para se cultivar uma amizade ou um amor. Podem ser os carinhos que faltam a alguém ou ser um excesso de amor que queremos proporcionar. Nossos sentimentos criam e destroem espaços. Uma nova amizade pode acabar quando os espaços a ela destinados são preenchidos por incompreensões ou relações tóxicas.
        Espaços são os momentos em que rezamos ao divino para que nossa alma não se sinta só. Espaço é se aproximar sem garantir o conforto, mas dar a alguém um espaço para ser amado ou confortado.

Origem da foto: Foto de Tami Mitchell na Unsplash

SUBSCREVA PARA RECEBER NOVOS POSTS

Views: 53

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

Obrigado por curtir o post