Crônicas

Conversas de bar

        Dois amigos se encontram na rua, após um longo tempo sem se verem. Dois homens decidem fechar ou conversar sobre um negócio ou uma oportunidade. Duas mulheres se beijam na rua e começam a conversar sobre suas vidas, colocando as conversas em dia. Tudo isso termina, muitas vezes, em um convite até o bar mais próximo e tomar um café. Claro, hoje em dia, podemos dizer que os bares se modernizaram e se transformaram em cafeterias, nome mais pomposo e chique.
        Mas os bares ainda conservam uma certa mística, um certo ar de passado misturado com o presente. O bar da esquina é um ponto de referência para o pedestre perdido nas cidades. Ele é um ponto de referência e um ponto de encontros e reencontros. Os detetives e os observadores se plantam nos bares da esquina à cata do movimento das pessoas, ou até para ouvir as últimas do dia. Bem antes das redes sociais e das fake news, nesses ambientes já rolavam muitas histórias que não estavam escritas e, na sua maioria, nunca se transformaram em verdades.
        Em volta das mesas circulam as melhores teorias conspiratórias, assim como os melhores quitutes regados a uma boa bebida. Um homem solitário encontra acolhida em um bar, onde passa a fazer amigos que nunca se conheceram e se convertem em íntimos de longa data. Ouvem-se as histórias mais verdadeiras, regadas às decepções amorosas, até mesmo aquelas que têm a velha tática de enganar o outro, usando uma lábia de boteco. Desde as fantasiosas histórias do mundo até debates filosóficos, o bar é uma bandeira universal da livre expressão. A bebida solta a língua do falante e prende e emudece aquele que respeita o ato de beber.
       O dono do bar é a figura mais emblemática em um boteco. Pode ser o advogado e o juiz de uma causa em questão, vomitando leis inexistentes, e pode ser o árbitro de uma peleia qualquer, envolvendo o jogo. Sua figura é requisitada para resolver as pendências das mesas, ao mesmo tempo que vai servindo, generosamente, o álcool que vai tornar as vidas mais excitantes.
      O menino ou a menina, os indivíduos adultos ou não marcam no bar da esquina a referência do encontro. O amante aguarda a sua amante, ou vice-versa, no ambiente protegido do bar, imaginando que seja o melhor esconderijo do mundo. Os olhares observadores do dono ou dos clientes habituais percebem a alegria ou o problema que podem advir. Por via das dúvidas, não dão as costas para a rua.
       Nos bares, as brigas não são coisas comuns, e por isso têm o nome de briga de bar, que é uma pendenga bem mais tradicional e familiar. Afinal, onde existiria um lugar melhor para comemorar a vitória do time e ter a oportunidade de gozar o adversário que perdeu do que no meio de tanta gente desconhecida? Mesmo que com isso, as possibilidades de acontecer algo inusitado não sejam muitas.
      Em um bairro, ele é um ponto de referência, que mostra que a história continua avançando, apesar de as paredes, as mesas ainda continuarem como um museu a céu aberto. São histórias que serão recontadas para filhos e netos, com as gerações substituindo as gerações nos balcões de atendimento. Um bar na esquina é muito mais do que o bar da esquina. A esquina é o ponto final do mundo da comunidade, antes de atravessar a rua em direção a outros bares em outros locais da cidade.

Origem da foto: Foto de Jonas Jacobsson na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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