Crônicas

Pontos de vista

         Como enxergamos o mundo depende da maneira como vemos a nós mesmos. O nosso estilo de vida define o mundo em que vivemos. Alguém que seja liberal nos costumes, no sentido de não se interessar pelo que o outro faz, ou seja, tende a ver o mundo dessa forma e, portanto, guardadas as devidas proporções (afinal não existe um padrão entre as pessoas), o mundo deveria ser, basicamente, que cada um cuidasse de si.
         Em outra perspectiva, aqueles que norteiam suas vidas a partir de alguma regra específica, seja religiosa ou carregada de preconceitos ou não, tendem a formar um mundo onde há limites para todos (e, algumas vezes, não estabelecem os seus próprios limites), e esse mundo se torna mais rígido e sob regras específicas.
        A palavra aspecto, por exemplo, tem essa dubiedade, como se o mundo fosse visto através de figuras geométricas com seus lados de diversos tamanhos e quantidades. E aspecto, também, é aparência, uma forma de esconder aquilo que não queremos ver ou, simplesmente, ignoramos a sua existência por uma questão de ponto de vista.
      Quando pensamos nas cidades, por exemplo, elas guardam aspectos que revelam as suas identidades. Cada uma delas exibe uma peculiaridade, um aspecto que transmite história, modernidade ou por serem frenéticas ou calmas. Conseguimos identificá-las por seus símbolos que, embora repetidos em outras, conservam um glamour que lhes pertence e pertencerá no futuro. Porém, uma cidade abandonada, por causa de crises econômicas com bairros ou ruas que foram perdendo seu valor econômico ou por causa de situações sociais, revela um aspecto de nostalgia misturado com o próprio abandono.
       Quando a justiça se apega às regras rígidas das leis, seguindo um critério puramente técnico, e não guarda o aspecto humano, preserva um aspecto de frialdade. Seria importante guardar o aspecto humano e a compreensão, a empatia diante da rigidez da lei? Por certo, há casos em que a lei deve ser imposta, guardando o aspecto legal e de proteção da sociedade contra aqueles que se insubordinam e perturbam o ambiente. Por outro lado, o aspecto mais relevante é o fator humano, que pode ou deveria influenciar os julgamentos no sentido de como a sociedade lida com os seus transgressores.
         Diante disso, temos o aspecto político que influencia as vidas dos cidadãos, e cada um deles vê o outro dentro da sua perspectiva, muitas vezes pela sua aparência e não pelas circunstâncias por trás dele (a origem social, a falta de oportunidades e outras coisas).
         Um outro aspecto é o da solidão, que tem um importante papel em nossa sociedade. Se compararmos as solidões, desde aquela que caminha solitária e muda no meio da multidão até aquela que resolve se autoisolar em um lugar distante, podemos identificar pontos de vista distintos, embora com ganhos ou perdas diferentes.
          Vemos o mundo, assim, desde as pequenas coisas até os grandes eventos, a partir de aspectos e pontos de vista que construímos de outros ou por nós mesmos.
       Esses pontos de vista ou aspectos de como vemos o mundo mostram que as mudanças de visões estão no abrir-se ao mundo. Ter uma visão soberana dele é um aspecto que deve ser reverenciado. Para os críticos, essa posição é vista como uma insubordinação, talvez porque as mudanças venham das novas perspectivas ou dos aspectos que tomamos. Para os demais, talvez, essa decisão demonstre um ser libertário e independente diante do senso comum.

Origem da foto: Foto de Chris Henry na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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