Cheiros da memória
Impressiona quando chegamos em algum lugar, nossa casa, nosso trabalho, na casa de avós e pais e sentimos o cheiro tão particular e com gotas de pertencimentos. Somado a isso, o cheiro tem a autenticidade da identidade única; só existe naquele lugar, naquela atmosfera e no ambiente que nos acolhe.
Invariavelmente, o cheiro inconfundível do café que se eleva na manhã de domingo e nos faz despertar de um sono profundo. Também quando o ser amado chega a nossa cama e nos desperta com um cheiro que parece o pó mágico que vai abrir os olhos de alguém adormecido.
Com efeito, o cheiro funciona como o ruído que desperta os nossos narizes, e não os nossos ouvidos. Além disso, o cheiro da roupa lavada que sai da gaveta para cobrir o corpo e encarar a jornada do dia, a casa recém-limpa, ainda adornando o ar com jeito de casa de campo, de coisa de criança e travessuras, e o cheiro dos avós quando nos abraçam, parecendo um tempo perdido que aparece no presente e perfuma a mente.
A despeito disso, os cheiros são, ao mesmo tempo, indicadores de coisas boas ou más. Afinal, se alguma coisa não cheira bem, é melhor se afastar, mesmo sendo um cheiro invisível, como a tatear o ambiente e perceber o perigo iminente. Pode ser uma conversa fora do tom, algum lamento ou alegria fingidos, assim como os cheiros denunciam as circunstâncias que ajudam a moldar nossa personalidade. Afinal, com o tempo, a gente aprende a cheirar coisa boa ou má longe.
Consequentemente, os cheiros perduram nas memórias e às vezes somos surpreendidos quando eles aparecem em lugares inusitados, como se anjos perfumados passeassem perto de nós somente para lembrar de alguma coisa. Dito isto, os espíritos podem ser perfumados, como odores múltiplos, travessos ou responsáveis. Em resumo, os cheiros são assim, feitos de perfumes que nenhuma química pode replicar.
A IDENTIDADE INVISÍVEL QUE PERFUMA O TEMPO E O CORAÇÃO
Às vezes somos atraídos não por um olhar e nem por uma figura que passa ao lado, mas pelo perfume que ela deixa. É como nosso olhar se desvia como um nariz que enxerga o que antes estava escondido. Por isso, os cheiros podem nos guiar por lugares estranhos e obscuros e a saída está no cheiro do ar fresco que penetra o ambiente desconhecido.
Não por acaso, o cheiro do talco e da fragrância dos bebês são motivos para abraços e mimos. Depois, a juventude o transforma em perfumes que atraem olhares cobiçosos ou invejosos, diante daquele ou daquela que sai e deixa no ambiente a identidade da sua existência.
Muito além de ser cheiroso, é como nos fazemos parecer aos outros, seja para causar uma boa impressão, seja para marcar as nossas presenças. Contudo, as pessoas se perfumam por vários motivos e, dentre eles, para mostrar o quanto nos consideramos importantes e quanto queremos demonstrar quem somos.
Não há nada mais gostoso do que o cheiro do abraço, o cheiro de pais, de avós ou de amantes. É como cheirar uma rosa ou um rosto amado e nos fazer sentir bem. Quando pensamos nas rosas e nos seus cheiros, o espinho tenta ferir o ousado que toca nas pétalas; porém, para o rosto amado, os lábios trazem os cheiros complementares ao amor que se aproxima.
Origem da foto: Foto de Clay Banks na Unsplash
SUBSCREVA PARA RECEBER NOVOS POSTS
#MemoriaOlfativa#CheirosDaInfancia#PsicologiaDoOlfato#AfetoESentimento#CrônicasDoCotidiano
Views: 24
