Buscando a melhor versão
Onde estaria o espontâneo quando buscamos uma melhor versão nossa que, necessariamente, não é a nossa versão real? A sucessão de filtros que “melhoram” nossa versão é mais uma propaganda enganosa e, no caso, engana a nós mesmos. Não pode existir conforto em apresentar a alguém uma versão melhorada e, ao mesmo tempo, falsa de si mesmo.
Ouvi, certa vez, uma observação de um amigo sobre as fotos de formaturas, onde todas as mulheres pareciam ter a mesma aparência, assim como todos os sorrisos iguais. Assistíamos às atrizes e aos atores nos filmes e novelas do antes com as suas imperfeições nos dentes, detalhes disfarçados pela maquilagem em outros, e não tínhamos nenhum tipo de crítica: olhávamos e ouvíamos suas performances, simplesmente. No entanto, os ângulos da câmera ou o uso de luz e sombras já tentavam fazer uma versão melhorada deles.
Imperfeições nem sempre são defeitos, mas antes de tudo revelam uma certa humanidade, um naturalismo do que, esteticamente aceito, considerávamos uma mulher ou um homem bonitos.
Quando menino, com o surgimento da televisão, ouvi outro conhecido comentar que a televisão era para gente bonita. Ou seja, desde sempre valorizamos o belo em detrimento do real talento de alguém. Desde sempre a valorização da juventude e da beleza é predicado essencial para figurar nas telas iluminadas.
Nos tempos atuais, o filtro passou a ser a maquilagem da pessoa comum. Nada é real, nem mesmo a beleza que aparece, seja de onde vier. A paz de ser aquilo que se é foi revertida pela performance em mostrar o que não se é.
A entrega à tiranização do corpo perfeito, sucessão de dietas, exercícios, roupas e a busca pela otimização fazem novos protagonistas anônimos competirem com aqueles que vivem da sua imagem. Isso revela essa fragilidade do ser humano diante das exigências mercadológicas para viver em um topo imaginário, desconstruindo sua própria imagem e adotando outras que não lhes pertencem.
A busca pelo ideal se transforma em uma ideia. Somos produtos para serem consumidos, na busca de visualizações, comentários e likes, que logo são trocados por outros produtos mais “inovadores”, levando muitos a expor intimidades somente para se sentirem “desejáveis” e “consumíveis”.
Em uma das passagens do Elogio da Loucura, de Erasmo de Rotterdan, o autor cita as idosas e idosos tentando demonstrar juventude e continuar a serem atrativos para atrair os mais jovens. A loucura, por sinal, continua, em uma versão moderna e atualizada pelos algoritmos.
Ser imperfeito pode atrair olhares e trazer descobertas. Não ser passa a ser uma aventura transformadora. Estar ao largo das atrações pode nos desplugar de um mundo irreal para a realidade. Ser um observador do mundo pode ser melhor entretenimento do que participar dele. Nos libertar dessa cobrança pode tornar nosso mundo mais leve e fácil de levar e ser uma ilha no meio da insanidade.
O melhor aplicativo é aproveitar o seu dia como puder; faz bem à saúde mental não se culpar por não fazer o suficiente e o medo de não se sentir incluído na insanidade. Aceitar a própria humanidade é um ato de gentileza consigo mesmo.
Origem da foto Foto de Tyler Franta na Unsplash
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