Crônicas

Excesso de tudo

          O equilíbrio, hoje, não é mais a medida de todas as coisas e o desequilíbrio faz parte da mentalidade moderna, em sua maioria. Vivemos o mundo dos excessos. Não basta ter uma profissão, na qual a satisfação de fazer o que se quer seja relevante. As profissões são medidas pela quantidade de dinheiro e de lucro que geram. Não é uma coisa moderna. Na realidade, essa busca por dinheiro sempre existiu. No entanto, mesmo que antes isso existisse, a lei do ganho pelo menor esforço, hoje, é muito mais exacerbada.
          Vivemos do excesso de informações, do excesso de exposição ou de opiniões, as mais disparatadas possíveis. O direito de falar o que se quer já se destrói pelo excesso de liberdade, que não é mais vigiada pelo bom senso, mas, simplesmente, pelo direito que se exige, excessivo, da liberdade de expressão.
         A vida normal, se podemos dizer assim, ou equilibrada, é o de menos, e não mais o equilíbrio entre dois lados antagônicos. Estar desconectado é ver o mundo do lado de fora e as grandes questões internacionais são sufocadas pelo “brilhantismo” dos Influencers que não geram ganhos para a sociedade, estando do lado de dentro. Cansadas da sociedade não oferecer as soluções para os grandes problemas, as grandes discussões do cotidiano são submetidas ao “julgamento” e ao linchamento, através das redes sociais onde cada um tem a sua excessiva opinião sobre tudo.
         As mídias inundam e sufocam a todos com notícias “quentinhas” todos os dias e as grandes manchetes se desfazem em questões de dias ou horas; vidas excessivamente curtas. As fontes de informação sempre têm que dar mais espaço para notícias novas e frescas. Há um excesso de tudo, inclusive das exceções.
         Não há possibilidades de melhorar o conhecimento, ampliá-lo e difundi-lo diante do excesso de distrações, no simples rolar de uma tela de telefone. Se compararmos à leitura de um jornal, tarefa que era feita em horas, hoje vemos a leitura espontânea, capitaneada por informações em tempo real do mundo.
       Gasta-se dinheiro, tempo e energia para garantir um espaço na atenção de todos. É como uma fila onde o primeiro que fraqueja ao não lançar algo novo seja defenestrado no ranking da atenção. Novos personagens entram no lugar ou os antigos inventam e se reinventam para manterem as suas posições.
        A vida, sendo vista do lado de fora, expõe o lado cômico dela. Se pudéssemos colocar em fotolitos uma passagem da vida, veríamos desde performances próximas ao grotesco até exposição da nudez e de piadas deseducadas e desproporcionais. São pessoas que perderam a decência e se esbanjaram no excesso de exposição, ainda que a vida que mostrem não seja factível e apenas fachada; um muro que isola a realidade da fantasia.
       Ostentar é a poética do absurdo e se expor a metáfora do novo rico. Ambas, a ostentação ou a exposição, são os grandes motores do nosso “desenvolvimento”. São elas os protótipos da futura indiferença. Caso seus Influencers caiam no ranking da atenção, há um excessivo contingente pronto para assumir os seus lugares.

Origem da foto Foto de simon na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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