Crônicas

Previsões e erros

        Uma grande parte da humanidade se dedica ou acredita na previsão do seu futuro. Encontramos esse comportamento tanto na leitura dos astros quanto no estudo das estatísticas do mercado financeiro. A crença é que, ao prever o futuro, se possa estar um passo à frente dos outros. Para isso, muitos recorrem a cartomantes, gurus e outros personagens que habitam o imaginário das pessoas.
         Consultar cartomantes é um hábito muito antigo. Desde as civilizações mais antigas até hoje, na sociedade pós-moderna, a consulta aos oráculos é tida como uma possibilidade de prever situações incômodas ou de garantir um benefício qualquer, como se houvesse uma loteria envolvendo astros, búzios ou cartas, e o destino estivesse escrito, bastando ler e acreditar nas previsões.
        Alguns têm premonições ou interpretam os sonhos, talvez porque somos seres místicos, por excelência, em graus menores ou maiores; poderíamos dizer que tudo isso seja fruto da nossa insegurança. Somos seres isolados no universo conhecido e temos a exata noção da nossa perenidade. A possibilidade de prever infortúnios ou ter a fortuna logo adiante nos remete a esse mundo apocalíptico, povoado de temores e fantasmas.
      Planejamos nossas vidas tentando manter um norte e não desviar do objetivo a alcançar. No entanto, os caminhos que traçamos, invariavelmente, vão sofrer a interferência do imponderável, daquilo que não é possível manipular para tentar transpor obstáculos. Buscamos dispor à nossa vontade dos caminhos a seguir com segurança, como se a vida pudesse ser um céu de brigadeiro, sempre azul e livre das tormentas. Mas elas vêm e vão acontecer, e nada será possível fazer para barrá-las. Mais dia, menos dia, a tormenta cairá sobre nossas cabeças e todos nós seremos atingidos por ela. Portanto, se nossas vidas fossem programadas por oráculos, eles definiriam nosso futuro, a profissão que teríamos e quem seríamos.
          Quando Colombo chegou à América, encontrou uma civilização que programava os seus cidadãos para exercerem determinadas funções na sociedade. Não havia a ideia do planejamento ou do livre-arbítrio na escolha do destino. Por isso, a ideia da riqueza não funcionava como a dos europeus. Os recém-nascidos já tinham o seu destino determinado pelos oráculos e, nesse caso, a opinião ou o talento não eram preocupações para ser alguém. Era uma vida dirigida, já definida, e a sociedade avançava sem que, provavelmente, a inveja sobre o que foi dado a outro não funcionasse. Ninguém “roubaria” a regalia do outro, porque tudo já estaria pré-definido; talvez, naquelas sociedades, a questão da ambição e do empreendedorismo não fosse incentivada como na nossa cultura.
         Mas a vida, para nós, é feita do surpreendente e daquilo que podemos ser, o que a torna fascinante. Prever a reação de alguém, tentar adivinhar o tempo amanhã e nos próximos dias, e qual será o resultado da poupança que mantenho para meus projetos, tudo são ideias ilusórias que entram em confronto com a realidade.
        A questão é que, para prever o futuro, sofremos um desgaste emocional diante da expectativa do nosso projeto de vida funcionando, como se ele fosse uma máquina que construímos e que estaria isenta de falhas. O problema é que ninguém combina com a adversidade, essa estranha personagem que surge como a antagonista na peça teatral das nossas vidas.
       A melhor forma de prever o futuro é cuidar da nossa saúde mental no dia a dia. Evitar aventuras que possam se transformar em decepções e arrependimentos futuros. É evitar atitudes deselegantes e maltratar aqueles que nos amam ou amamos, que sofrerão no hoje e nos causarão arrependimentos no futuro.
         Prever é um ato de plantar coisas boas no presente e colher os frutos dessas atitudes no futuro. De antemão, não sabemos nada, porém quando plantamos discórdia, vamos colher, com certeza, solidão no futuro.

Origem da foto: Foto de Shreyas shah na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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