Crônicas

Gincana de risos

         A palavra gincana nos traz memórias. É um misto de competição e amizade não pela busca do prêmio, mas pelos risos, as trapalhadas e as situações curiosas que ocorrem. É claro que o bairro teria que se manifestar diante desse desafio. E foi proposta uma gincana às pessoas da comunidade. As buscas iam desde o lápis que o apontador de bicho da esquina usava até as roupas íntimas de alguém.
        Quanto ao lápis, o apontador graciosamente cedeu tantos a quantos lhe pediram, sempre com a lembrança de que algum bicho poderia ser sugerido para apostas. Os apostadores de plantão, atentos aos avisos do destino, apostaram de A a Z e, é claro, se os competidores vinham em grupo ou sozinhos, tudo de acordo com os olhares perspicazes dos experts ao observar pistas para vencer no jogo.
        Mas a grande questão seriam as peças íntimas.
        A primeira foi de alguns dos participantes não chegarem a um acordo sobre o que seria a roupa íntima, depois que alguns alertassem que, de íntima, poderiam ser muitas roupas.
        – De homem ou de mulher? – perguntaram alguns.
       A comunidade decidiu que ficaria a critério de cada um: cor, tamanho, usada ou nova, também não haveria uma diferença.
       O nó da questão é que deveria ser da pessoa mais idosa da comunidade. Logo, a seguinte questão seria descobrir quem seria a pessoa mais velha.
       Consultadas as mães, pais e avós, não havia uma conclusão definida sobre quem seria a pessoa mais velha da comunidade. Chegou-se à conclusão de que o Seu Rico que, a despeito do nome, não tinha nenhum tostão, seria a pessoa a ser considerada e buscada. A algazarra se formou na correria desenfreada em direção à casa do escolhido. Bateram à porta, vasculharam o quintal em busca de alguma peça secando ao sol e nada: nem roupa íntima, nem Seu Rico.
        De repente, Seu Rico aparece à porta com uma bonita roupa, pronto para um passeio. Iria visitar uma amiga que conhecera há pouco tempo e, quem sabe, algum namorico à vista.
        Os participantes solicitaram ao velho senhor a prenda que foi escolhida como a peça-chave da gincana. Ele olhou, incrédulo, tentando entender o que seria a tal gincana, e depois, fulo da vida, ao saber que sua intimidade seria o motivo daquela busca. Não, ele não tinha uma roupa íntima para ceder, porque, simplesmente, não usava nenhuma.
        – Como nenhuma? – disseram todos.
        – Sim, não as tenho porque tenho preguiça de lavar – ele respondeu.
        – Serve meias – disse alguém.
        Foi quando ele apontou para os próprios pés e disse:
        – Somente tenho essas aqui – apontou para os próprios pés.
        A plateia ficou muda diante do disparate. Nem um lenço, nem uma cueca velha para limpar o chão ou os móveis, nada?
        Foi quando um grupo levantou e levou Seu Rico nos braços e ele foi carregado rumo ao final da gincana. Nunca Seu Rico tinha sido carregado nos braços da galera e apresentado ao vivo, sem os seus lustrosos sapatos, com a sua roupa íntima em pleno uso para comprovação.

Origem da foto: Foto de Meadow Marie na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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