A dor das coisas eternas
Diz o ditado popular que não há mal que sempre dure ou bem que não se acabe. Mas se o mal sempre durasse e consumisse os corpos e almas mas, também o bem durasse à eternidade? Pois bem, estamos falando de coisas eternas e, portanto, isso seria uma coisa boa ou má, a duração de sentimentos?
Desejar o mal a alguém é uma espécie de castigo que consome nosso corpo e a alma definha. Viver uma eternidade desejando o mal, por motivos mesquinhos, deve ser um castigo enorme que se impõe ao próprio corpo. O sovina que amealha os bens, consumindo a sua vida inteira a juntar fortunas, isolando-se do mundo e somente cercado delas, traria uma dor que, embora não aparenta sentir, existe e forma o bolor na sua própria existência.
O tirano que se perpetua no poder causa uma dor enorme ao povo que depende dele. Ou independentemente da vontade do povo, ele se impõe e dita o rumo da sua existência. Ditaduras são a existência de uma eternidade, mas é um mal que um dia acaba, depois de causar toda a dor possível. Sem dúvida, seria terrível, para a humanidade, que o mal vivesse eternamente, atormentando as pessoas. E o bem, como seria? Nos causaria felicidade e passaríamos a ser lenientes com tudo, já que o mal não existiria? Independentemente dos fatos, alguns privilegiados existiriam, acima do mal e do bem.
Um modelo econômico que subjuga os mais pobres é um mal que eterniza a pobreza. A pergunta é se um dia ele acaba ou outro modelo mais opressivo se instala.
O bem, entretanto, tem as suas nuances. Muitas coisas parecem boas e, na verdade, podem esconder o mal em si mesmas. Mas o bem tem seus momentos de candura, quando a bondade se espalha e traz um sentimento de paz, em que todos se sentem bem. O bem não está em um modelo econômico, mas na boa vontade das pessoas de mudar, senão o mundo, as próprias vidas e perspectivas.
Mas poderiam as coisas eternas causar dor? Falamos sobre o mal, falamos sobre o bem, e como coisas que acabam têm um final.
Agradecer eternamente o bem que alguém nos faz, uma ajuda em uma hora difícil, não seria nada de mais. Estar em uma situação dura e sem controle, quando surge uma mão que nos tira do fundo do poço, onde poderíamos permanecer uma eternidade, embora encapsulada em uma vida terrena, somente a eternidade seria suficiente para demonstrar nossa eterna gratidão.
Os sonhos e os desejos fazem parte das nossas coisas eternas. Tê-los e não vivê-los são a fonte das nossas dores. Quando começamos a vida, elaboramos nossos sonhos e desejos como um diário para o futuro. Quando chegamos ao futuro e não os realizamos, e percebemos que o tempo dado a eles não mais existe, são as dores dessa ausência que nos frustram os sentidos. Sonhos nos doem quando não os realizamos, mas também nos doem, eternamente, quando não podemos vivê-los novamente.
Mas, e um amor eterno?
Quando alguém encontra o ser amado – aquele ou aquela que diz ser nossa alma gêmea -, seria um presente divino? Depois de juntos perceberem que não podem viver um sem o outro, alguém que nos fala pelo olhar e nós respondemos com o brilho dos nossos olhos. Aquele ou aquela que nos recebe com sorrisos e os braços abertos depois de um dia difícil. Ou alguém que aguardamos ansiosamente porque a sua ausência de poucas horas nos parece uma eternidade.
Talvez a dor mais intensa nas coisas eternas seja a de não mais conviver com quem se ama, e quando ele ou ela não são nada mais do que lembranças. Um amor que se rompe, depois de tantas coisas trocadas, de esperanças e sonhos correspondidos, e de um momento para outro ele se vai; como conviver, eternamente, com a lembrança de uma dor?
Um amor existe para sempre, desde aquele que perde o amor para a eternidade até aquele que rompe e deixa no outro a eterna lembrança: qual o tamanho da dor de quem ama para sempre?
Origem da foto: Foto de Matúš Sabo na Unsplash
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