Invencionices
Todo mundo tem uma história para contar. Será verdade? Têm histórias que a gente não conta, nem amarrado e torturado. São, talvez, aquelas histórias que queremos esquecer e que se caírem na boca do povo, é um deus nos acuda. Têm as histórias que nos orgulham e a gente repete e repete, sempre um prazer contá-las, mas e os ouvintes? Com uns drinques na cabeça, então, saem coisas do arco da velha.
Têm histórias que a gente inventa, que não chega a ser uma mentira, destas deslavadas (sempre repito o termo, mas não entendo se é para lavar ou não), que tiramos da imaginação. Não chega a ser uma mentira, como eu disse, mas tem alguns acréscimos que vão dar um certo drama ou motivo para chacotas. No fundo pode ser uma piada que colocamos no meio da conversa, dessas coisas para alegrar a audiência.
Escritores inventam uma história que, no caso, seria uma estória, cheia de invenções e travessuras que nunca aconteceram na vida real, mas a gente gosta ou imagina tê-las vivido.
Contar histórias ou estórias tem a ver com um currículo de alguém espirituoso ou chato, que traz coisas de quem já foi, de quem causou isso ou aquilo. Têm as histórias do convidado que acha que traz alegria para o almoço da família, mas, no fundo, é um chato. Ele ri das próprias histórias e, com o copo de cerveja nas mãos, está crente de que faz sucesso, mas não. É mais conhecido como o tiozão, emérito narrador de coisas aleatórias.
Tem também o amigo meio professoral que fala das curiosidades, discorre com propriedade sobre qualquer assunto. Funciona como a enciclopédia a que todos recorrem para ouvir as histórias de lugares, gente e algo do passado, mesmo que não tenha vivido, mas leu em algum livro.
Mas as estórias são aquelas que fazem o maior sucesso. Contar vantagens deve ser uma tradição desde os homens das cavernas em volta do fogo, para aquecer o frio da noite, depois de preparar a comida, derreter algum metal para fabricar armas. Dá para imaginar contar o dia da caçada que algum tiozão troglodita resolveu dar um colorido nas suas façanhas e descreveu com habilidade e convencimento o tal bicho que botou para correr. De fato, correr seriam as duas alternativas: o bicho correr ou o narrador enfiar uma carreira para fugir dele. Nesse caso, não seria uma mentira porque, de fato, o sujeito correu e sobreviveu para contar a tal estória.
As melhores histórias são aquelas que os antigos companheiros de infância, do colégio ou do trabalho resolvem contar e recontar. Motivos de risadas e lembranças que trazem um tipo de felicidade e um cheiro diferente. Nesse lugar não há estórias, mas somente aquelas que aconteceram e todos viveram.
Contar histórias, que com um pouco de invencionices se transformam em estórias, são memórias necessárias. Mesmo aqueles que viveram poucas aventuras têm histórias para contar. Tê-las é um sinal de vida. Inventá-las, uma maneira de não se sentir alijado do mundo.
Origem da foto Foto de Matt Ridley na Unsplash
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