Reflexões sobre a liberdade nasceu das leituras entre Jacques Maritain, um filósofo francês, de formação católica, Adorno e Horkheimer, da escola de Frankfurt, e das leituras posteriores de Zygmund Bauman e Tim May, com o aprendizado de pensamento com as Ciências Sociais. Coloquei em confronto as ideias de liberdade entre os dois primeiros e a forma de pensar, sociológica, fora do senso comum, de Bauman.

REFLEXÕES SOBRE A LIBERDADE

INTRODUÇÃO

A Liberdade, e colocamos em maiúscula para definir como um objeto de desejo, é senso comum quando se está no terreno político, a liberdade de expressão, da opinião, do credo, enfim, liberdade é o que se quer. Ao ser usada livremente ela é usada tanto pelos conservadores, quanto pelos ditos militantes de esquerda, de centro, é reverberada pela imprensa, não se levando em conta se essa tal Liberdade está a serviço de quem. Quando nos sentimos tolhidos de alguma forma, conclamamos pela Liberdade, e ela se encaixa em qualquer voz, o uso do direito da liberdade é arvorado por qualquer indivíduo, não importa sua classe social ou econômica.

Não podemos determinar o que é Liberdade, mas, percebemos a sua inexistência. Não sabemos como ela é, como os astrônomos que percebem a presença de um planeta, a partir de cálculos matemáticos, até que comprovem o fato. Liberdade não é algo tangível. E por não ser tangível, podemos dizer que cada um tem a sua. Liberdade é um nome de algo e,

As ações humanas e as interações que os sociólogos estudam já receberam nome e já foram analisadas pelos próprios atores, e, dessa maneira, são objetos de conhecimento do senso comum. Famílias, organizações, redes de parentesco, vizinhanças, (…) qualquer agrupamento mantido coeso pelas interações humanas regulares já se apresentam com significados e significações conferidos pelos atores. (BAUMAN, Zygmund, 2010, p 19)

            Assim sendo, cada grupo pode abdicar para si o que é liberdade, desde aqueles que vivem sob ditaduras, a Liberdade é uma, para aqueles que vivem sob uma outra espécie de controle, Liberdade tem outra forma.

Usar a Liberdade como bandeira torna-se o princípio básico da vida comunitária, da vida em comum. Nós nos julgamos livres, as nossas prisões se dão quando trocamos essa liberdade por regras de convivência em sociedade. Uma sociedade totalmente livre é totalmente descoberta, livre dos controles, do direito de ir e vir, enfim somos livres, no entanto não podemos ficar totalmente desprotegido de semelhantes que querem exercer uma influência seja física quanto política e contra isso nos defendemos. Para exercer essa defesa pagamos a faculdade de os controles não estarem em nossas mãos, as regras nos restringem territorial, econômica e politicamente. Somos livres, mas somos livres a que preço?

Ao definirmos Liberdade, a queremos como um bem individual. Nossa liberdade termina onde começa a do outro. Portanto, existem barreiras naturais, patrocinadas pela ética que nos coloca em um limiar, logo a Liberdade não é total, ela segue alguns limites.

Vivemos em liberdade, mas sob qual tipo de liberdade? Aquela que advogamos em nossa causa é a mesma liberdade que nossos semelhantes pedem e lutam. E se lutam, quem é o dono dela para que a tomemos? Se lutamos pela Liberdade ela está em perigo, e lutamos contra aquele que a mantém refém, ou se julga dono dela, ou será que essa Liberdade não existe e lutamos pela Liberdade falsamente alardeada e existe uma verdadeira, mais ampla, mais justa, que estaria dentro de nós, e a ela e ela somente a nós deve satisfações?

Podemos perdê-la? Em caso afirmativo nós temos a sua posse. Em qual objeto ela está representada? Quem a representa? Estas questões levantamos quando a leitura de Princípios de uma Política Humanista, de Jacques Maritain, filosofa sobre os conceitos de liberdade e que ela é decorrente do exercício de patrocínio de melhor convivência entre os indivíduos.

A fraternidade (…) é o termo duma luta lenta e difícil conquista, que exige a virtude, o sacrifício e uma perpétua vitória do homem sobre si mesmo (MARITAIN, 1960, p. 36)

            Na Dialética do Esclarecimento, Theodor Adorno e Max Horkheimer nos traz a dialética do Iluminismo que os autores preferem como Esclarecimento, onde a existência da razão, na ordenação da sociedade, que se torna mais palatável, e difícil de regular, o conceito de liberdade está subordinado a um condicionamento do ser humano ao comportamento padrão. No texto, um dos principais fundamentos é aquele em que o ser humano desistiu de pensar, de pensar sua existência, a convivência social, arbitrar sobre os acontecimentos. E, para isso, a Liberdade tem um papel preponderante, onde

O esclarecimento pôs de lado a exigência clássica de pensar o pensamento (…) porque ela desviaria do imperativo de comandar a práxis, que o próprio Fichte no entanto queria obedecer. O procedimento matemático tornou-se por assim dizer, o ritual do pensamento. (ADORNO & HORKHEIMER, 1985, p. 14)

            Finalmente, Zygmunt Bauman nos ensina que o pensar sociológico ajuda o ser humano nas relações entre si, e a Liberdade tem um papel preponderante, porque o livre pensamento traz melhores esclarecimentos, e o sujeito é totalmente livre ou pelo menos imagina estar no controle quando ele pode conceber o que é Liberdade para ele.

Ter a sensação de ser livre e concomitantemente não ser, entretanto, é parte comum de nossas experiências cotidianas – é também uma das questões que mais confusão provocam, desencadeando sensações de ambivalência e frustração (…). (BAUMAN & MAY, 2010, p. 31)

            Jacques Maritan, um filósofo de formação católica, e Adorno e Horkheimer, esboçam duas visões equidistantes da Liberdade.

A fraternidade (…) é o termo duma lenta e difícil conquista, que exige a virtude, o sacrifício e uma perpétua vitória do homem sobre si mesmo. (MARITAIN, 1960, p. 36)

O cristianismo suavizou o termo do absoluto (…). Sua mensagem é: não temais; a lei desaparece diante da fé; maior que toda majestade é o amor, o único mandamento. (ADORNO & HORKHEIMER, 1985, p. 146)

            Bauman e Mayr contribuem dizendo,

Ter a sensação de ser livre e concomitantemente não ser, entretanto, é parte comum de nossas experiências cotidianas – é também uma das questões que mais confusão provocam, desencadeando sensações de ambivalência e frustração, tanto quanto de criatividade e inovação. (BAUMAN & MAYR, 2010, p. 31)

            Ao final, o ensaio procura concluir o que cada um desses teóricos pode contribuir para a reflexão da Liberdade, não como esgotamento do tema, mas sempre com uma reflexão na evolução de o que é Liberdade.

LIBERDADE TEM SEU PREÇO

As coisas na vida têm um preço. Você paga pelo fato de ter escolhido o caminho da esquerda, da direita, de ficar parado, enfim, o Tempo corre contra você. E, ignorando a nossa existência, ele apenas observa o quanto você vai pagar por sua decisão. O Tempo viaja, talvez queira companhia.

Na grande maioria das vezes, a busca da liberdade nos obriga a tomar um caminho, uma direção. E você paga por isso. Logo, liberdade tem preço.

Para ter a liberdade na sua casa, nos dias de hoje, você paga o preço de morar em um local fechado, de preferência em uma casa fortificada ou em um caríssimo condomínio. O preço que você paga pela sua segurança é ter menos liberdade. Portanto, liberdade também é uma moeda de troca. Andar envolto de pessoas armadas até os dentes, dispostas, supostamente, a entregar as suas vidas pela sua, nos torna prisioneiros delas, ocasionando uma exclusão, sendo a nossa liberdade permeada pela segurança como

Áreas residenciais exclusivas, policiadas por companhias de segurança privada, são mais um exemplo do fenômeno de exclusão, por parte daqueles que têm recursos financeiros, dos que não compartilham das possibilidades derivadas de sua renda e sua riqueza. (BAUMAN & MAY, 2010, p. 66)

            A outra opção é aceitar viver com menos segurança e caminhar pelas ruas, respirando uma pouca liberdade, ainda que ela seja breve, ou possa ser abreviada por outros. Poderia também se retirar do mundo, isolar-se, ter o menor contato com outros semelhantes, se dedicar aos animais, e aí você estará prisioneiro da própria solidão, e ao querer conhecer o mundo, quem cuidará dos seus bichos? Logo, você é prisioneiro do amor que você sente, e por ele você abre mão da sua liberdade.

            Você poderia ser um animal, viver como eles. Mas, conforme Maritan (1960, p. 24), os animais são prisioneiros da sua existência, do pássaro que se obriga a cumprir a rotina do ir e vir ininterrupto, completando o ciclo da vida, prisioneiro do mais forte, sempre alerta. Ou poderá estar no topo da cadeia alimentar, sempre à espreita da manada que lhe serve de alimento, procurando o mais fraco, porque tem medo do coletivo, e sempre atento pelo seu território, porque a ambição de ter tudo o torna prisioneiro de si mesmo, travestido de liberdade, prisioneiro do Tempo que irá cobrar, no futuro, o seu tempo de fortaleza.

Você também poderia ter as liberdades de escolhas. Escolher viver em qualquer lugar, possuidor de uma riqueza que proporcione isso. Fugir para onde você julga existir mais liberdade. E se torna refém de outra cultura, a perda de raízes culturais e familiares; se desprender do mundo, adotando um outro lugar completamente estranho, e, novamente, você estará refém da solidão, trocando a sua liberdade por alguma outra coisa.

Ou pode racionalizá-la e ser submetido a um confinamento dessa mesma liberdade.

O resultado dessa liberdade de escolher a perseguição do inatingível parece ser condenar-se a permanecer para sempre em estado de privação (BAUMAN & MAYR, 2010, p. 246)

           Poderá também optar por acumular riquezas que de tal forma o torne aquele com mais opções de escolha. Consumir, o poder do consumo lhe traz a liberdade de ter, de possuir, de sempre almejar. No entanto, o casebre com toda a tecnologia não torna o seu habitante mais livre. Ele ainda é prisioneiro por vigiar aquilo que possui; é preço.

(…) algumas são mais livres que outras, porque seus horizontes e escolhas de ação são mais amplos, e elas, por outro lado, podem depender da restrição dos horizontes de outros. (BAUMAN & MAYR, 2010, p. 47)

            E você se questiona, se algo que você persegue, e sempre está disposto a trocar em qualquer loja de conveniência, realmente existe. A existência da liberdade poderia ser apenas uma justificativa na nossa viagem interminável. Viajamos em busca dela, viajamos em busca de alguma coisa que não sabemos definir bem. Sabemos que ela existe, que ela é possível, ou então definimos que ela existe e partimos em busca do inusitado.

            Poderíamos viver em um mundo onde nos amaríamos uns aos outros, o respeito fosse mútuo, que todos olhassem por todos, mas, sempre haveria aqueles mais gananciosos, os loucos pelo poder, os mais preguiçosos, os mais rápidos, os mais trabalhadores, e automaticamente haveria o desprezo por aqueles que não querem se enquadrar no mundo paradisíaco. Seriam isolados, e ao mesmo tempo gostariam de usufruir das benesses do mundo organizado e por terem liberdade tomariam isso de alguém.

Ao mesmo tempo, a liberdade às vezes é comprada com o preço da maior dependência dos outros. Falamos sobre o papel desempenhado pelos recursos materiais e simbólicos no processo de fazer da escolha uma proposição viável e realista, bem como do fato de que nem todo mundo tem garantido o acesso a esses recursos. (BAUMAN & MAYR, 2010, p. 46)

            Como ter liberdade quando a liberdade sendo de todos, daria a todos a liberdade de bem fazer o que quiser? Como a liberdade se nem todos estariam dispostos a ceder o de si para o bem comum, se as diferenças de se dar são tão grandes?

            Vivendo em busca da segurança, buscamos a prisão, travestida de liberdade. Logo, liberdade não existe. Isolamento social, indiferença para as opiniões contrárias, alimentação de opiniões entre os pares, desvios de caminhos para outros mais habituais e familiares, tudo isso é busca da segurança e não, busca da Liberdade.

Somos assim. Nossas diferenças são as responsáveis por nossa existência. Somos cruéis, somos egoístas, e até mesmo egoístas em nossas liberdades. Quando criticamos sociedades tribais envoltas em suas relações humanas, desdenhamos aquela liberdade, e queremos consertar, ditar regras em um mundo desigual. Somos ditadores dos outros para preservar um conceito próprio de liberdade nosso, prisioneiros de nossas ideias e não permitindo a abertura de corações e mentes, apenas para compreender o outro, e compreender o próprio fato de ele existir. Exigimos o comportamento do outro apenas porque dentro daquele padrão de escolha ou oportunidade conseguimos sobreviver. Somos como os animais que capturam suas fontes de alimentos e os trazem para o ambiente onde são dominantes. Somos prisioneiros das nossas vitórias e fórmulas de sobrevivência em um mundo sem regras padronizadas, onde a oportunidade e o oportunismo são os ingredientes para buscar a liberdade de escolher.

O egoísmo nos encerra em uma cúpula de segurança onde pensamos existir a liberdade, sendo que a rotulação do outro define o espaço invisível dos nossos condomínios, onde temos vizinhos que pensam como nós, ou apenas estão ali, convenientemente, como infiltrados, não concordando com aquilo, apenas guardando o silêncio, sinal de sobrevivência.

Quando entramos em um comércio qualquer temos nas prateleiras os diversos produtos. Em um deles está a Liberdade. Perguntamos quanto custa. O vendedor nos responde que Liberdade não tem preço, mas está ali, para quem quiser comprar.

Se você tem muito dinheiro, pode oferecer. Se você não tem, pode oferecer os seus braços, sua mente, sua disposição para se escravizar e ter o seu objeto de desejo. Você pode trocar tudo isso, e todos sairiam iguais, possuidores da Liberdade. Se você abre mão do que tem, e abre mão de si mesmo para o bem de todos, a Liberdade se instala e passa a habitar cada residência, cada rua, cada esquina, cada casa.

Pagamos um preço, o preço de não ser nada em um mundo onde regras são estabelecidas para ser alguém. Nosso convívio social nos cobra comportamentos, na verdade de sobrevivência, e o preço da liberdade é abdicar de tudo o que temos, que tem um preço, o preço de possuir. Logo a Liberdade livre do Tempo, das maquinações, das armadilhas, das estratégias, da abertura das nossas habilidades, é o respirar, é o sorver o ar.

O TEMPO E A LIBERDADE

Tic, tac, tic, tac. Enquanto o Tempo avança, há um momento em que refletimos, e o Tempo continua avançando. Cada passo adiante, pensando em como resolver um problema, nós envelhecemos, treinamos, nos preparamos e nem sempre atingimos o alvo. O Tempo funciona por si próprio, ou então nós estabelecemos um passar de horas em busca de conforto ou em busca de desconforto. Sentimos a liberdade de pensar, gastando o nosso tempo, pensar é um ato solitário, inconclusivo, temerário. O pensar é uma prisão, quando o concebemos como maquinações, ou libertação quando abrimos nossa mente.

Tomar atitudes impensadas podem ser opções de escolhas. Ser intempestivo, informal, desregrado, desencanado do mundo, livre das suas amarras, desarrumados no vestir, andar em desacordo com o uniforme da moda, consumir o básico, o trivial, se desapegar da sociedade de consumo, enxergar o mundo de fora, parar em um banco de praça imaginário e ver o mundo rodar.

Porque o homem é um ser em movimento. Se não adquire, não só nada tem, como perde aquilo que tinha. Tem que conquistar o seu ser. Toda a história da sua miséria e da sua grandeza é a história do seu esforço para conquistar, com a sua própria personalidade, a liberdade de independência. O homem é chamado à conquista da liberdade. (MARITAIN, 1960, p. 23)

            O Tempo é o mesmo. Mas, como esse Tempo pode ser aproveitado a nosso favor? E qual o preço que se paga? O Tempo deixa de existir. Passamos o tempo todo a tentar conquistar a Liberdade, somos eternos viajantes em busca dela. A sua busca está quando olhamos o passado em busca do ponto onde optamos pela estrada errada, ou examinamos nosso presente em busca das oportunidades onde buscamos a Liberdade, e pensamos no futuro, quando, percorridos os caminhos delineados conquistaremos a Liberdade. No passado estão as desculpas por nossos erros, e a busca da experiência em opções presentes, no presente, perdemos o tempo pensando nas estratégias, e no futuro, uma ficção dentro de nós, estabelecemos as metas. Logo, com a Liberdade o Tempo não existirá. Ser livre é viver o tempo presente, sem as decepções do passado e sem perdê-lo em estabelecer o futuro.

            Somos indivíduos e raciocinamos unicamente, nossos pensamentos não evoluem para o ar e se misturam, agregam, somos interesses, e cada um de nós tem interesses, maneiras de regrar a vida. Somos crianças que se distanciaram no futuro. Observá-las, quanto mais jovem, vemos que o tempo para elas não existe, não se preocupam com ele. O Tempo é o presente, o brinquedo que distrai a todos, e as mãos são todas iguais. O que as torna diferentes entre si, somos nós, acostumados a um mundo de sobrevivência e a elas vamos ensinando as regras para subsistir. Ensinamos o bom, o ruim, o mau amigo, o bom amigo e não, simplesmente, as colocamos em contato umas com as outras e deixemos que transforme o mundo.

Quando as ensinamos a providenciar o futuro, damos a elas um preço, cobramos delas os comportamentos, e esses são os preços que elas pagam. E assim elas são introduzidas no Tempo, e aprendem a comprar Liberdade, pagando o preço dos minutos e horas, e não trazendo o passado como lembrança, mas como erros a serem corrigidos. Erros são preços que pagamos ao Tempo para ter Liberdade no futuro.

Nós colocamos nossos filhos em mundo já herdado, e perpetuamos cada vez mais, para as gerações, que o Tempo é a moeda de troca pela Liberdade. Quanto tempo perdemos em criar estratégias em busca da Liberdade?

Logo, entramos em um comércio e perguntamos quanto custa a Liberdade. O vendedor poderia dizer: quanto tempo você está disposto a trocar para tê-la?

SEGURANÇA E LIBERDADE

Assim como o dinheiro, que compra muita coisa, mas nem tudo, afinal, como diz a propaganda que “tem coisas que o dinheiro não compra”, a Liberdade não se compra com dinheiro. Com dinheiro você compra segurança, desde a segurança física, como a segurança social, traduzida em poder de consumo.

Os objetos de desejo são produtos de consumo. Mas, o consumo pressupõe a breve inexistência dele, quando a televisão quebra, o celular para de funcionar, a casa precisa de consertos, nós precisamos de conserto quando a saúde enfraquece, e nosso objeto de desejo é adquirir outros bens, ou consertar a nossa saúde.

Os homens receberam o seu eu como algo pertencente a cada um, diferente de todos os outros, para que ele possa com tanto maior segurança se tornar igual. (ADORNO & HORKHEIMER, 1985, p. 24)

            Existem, portanto, objetos de desejo que são descartáveis e outros não. Nós, por exemplo, não somos descartáveis. Não podemos simplesmente usar uma técnica de avatar e transportar nossa alma, nossa consciência para outros invólucros e continuarmos a existir. Haverá um tempo quando seremos descartáveis. Mas, de todos os objetos de desejo, a nossa preservação é o maior de todos.

.           Somos condomínios ambulantes. Temos a casa onde nos encerramos para comer, dormir; temos nosso carro que nos transporta; nosso trabalho onde encerramos as nossas ambições, ou onde trocamos nossa liberdade pela extensão da Liberdade que é consumir e sobreviver.

Portanto, nossa Liberdade está diretamente afetada pela nossa segurança.

Lá está, primeiramente, um lugar que é nosso país, no qual, se supõe, todo passante é capaz de falar uma língua que entendemos, obedece às mesmas regras que nós e se comporta de maneira compreensível, de modo que sabemos como responder a seus gestos e suas conversas. (BAUMAN & MAYR, 2010, p. 147)

            Se temos tudo ao nosso alcance, a liberdade de ter é que nos torna diferentes dos outros. Se estamos em segurança temos Liberdade, mesmo que essa Liberdade seja apenas um conceito individual, e não um conceito coletivo. Para aqueles que nada têm, ou pouco têm, a Liberdade é relativizada pelo seu poder de ter. Entre estes dois universos habita a ambição, a capacidade de desenvolver estratégias para atingir um melhor padrão de consumo.

Portanto, parafraseando Paul Virilio, a política foi associada a uma liberdade baseada no medo, e a segurança social, ao direito de consumir. (BAUMAN & MAYR, 2010, p. 272)

            Difícil de atingir, a meta se transforma na capacidade de causar no outro a inveja de não ter.

            A limitação em não se atingir a totalidade, nos torna exposto ao perigo. Não conseguindo os objetivos de forma mais rápida, porque o Tempo urge para aqueles que nada têm e se prorroga para aqueles que muito têm, ou seja, para os despossuídos em menor ou maior grau, os sujeitos abrem mão da liberdade do presente para tentar estratégias para o futuro. Ter, possuir, entre os pares, é sinal de prosperidade e a venda de maiores possibilidades de escolha.

São as opções. No lugar de criar uma providência para assegurar no futuro mais liberdade, o indivíduo opta por viver o presente, adquirindo bens que proporcionem a ele maior vivência no presente. É quando ele opta pelo carro novo e consegue objetos de desejo como viver plenamente, ou se privar para o tempo adiante.

Troca-se a segurança pela Liberdade.

Quanto mais inseguro é o futuro, maior liberdade você tem. Tomar todas e beber todas é um momento de liberdade, mas uma forma de liberdade individualizada. Liberdade é poder de decisão, Liberdade é decidir ser aquilo que o consciente determina. Quanto mais Liberdade o indivíduo quer, mais inseguro socialmente ele se torna, mas a segurança é o menos importante, porque a estrutura de segurança é algo que se vende, é uma mercadoria que se tornou necessária, você é imbuído a viver em segurança, quando olha as esquinas, evita os lugares ermos e escuros, os lugares desconhecidos, sobe o vidro do seu carro ou cerra as portas de sua casa. Segurança é uma mercadoria decorrente da Liberdade.

Quanto menos você gasta em segurança, mais Liberdade você tem. E por quê?

Quanto maior o número de bens que você acumula mais necessita protegê-lo, desde o seu negócio, a mobília da sua casa, a incolumidade da sua casa, seu lar, as pessoas que você ama. Se você acumula, qualquer que seja o bem, tangível ou intangível, você necessita de segurança para garantir a liberdade de usufruir deles.

Em um mundo igualitário, supostamente onde os produtos sejam os mesmos, todos consumam o mesmo, a diferença entre os indivíduos não carreia a inveja, mas também a liberdade de pensamento se dilui.

Não há lugar, nem para o poeta, nem para o contemplativo, num mundo igualitário. A cultura como tal deve ser passada a ferro. (MARITAIN, 1960, p. 125)

            A insegurança é trazida pelas diferenças das posses de cada um. Se todas as televisões fossem iguais, os carros, as comidas, não haveria necessidade de se buscar o além, podendo barrar os ímpetos de inovação e transformação.

Quando repetidos com suficiente frequência, os fatos tendem a tornar-se familiares, e o que é familiar costuma ser considerado autoexplicativo: não apresenta problemas e pode não despertar curiosidade. (BAUMAN & MAYR, 2010, p. 23)

            A sofisticação traz as diferenças, porque queremos internamente ser diferentes dos outros. E na sociedade atual a diferença é estabelecida pela qualidade dos objetos entre si. Existem objetos que são inacessíveis a alguns, e a inveja em possuir leva a abrir mão da segurança para tê-los. Abrimos mão da Liberdade para entregar nosso Tempo em adquiri-los, permeando o nosso nível de felicidade quando tentamos ultrapassar nossos limites, seja de forma intelectual quanto monetária.

            A sociedade estabelece punições para aqueles que ultrapassam os limites da convivência para alcançar o além, para ultrapassar os limites, e daí a corrupção, a venda de consciência ou a evasão para a marginalidade. Abrimos mão da segurança para conseguir a Liberdade, que está estabelecida no poder de consumir e possuir.

Nossa Liberdade está no comportamento social onde abrimos mão da segurança em possuir aquilo que não está ao nosso alcance, e o trocamos pela meta que está dentro das nossas possibilidades. Nos vendemos, nos expomos para causar inveja ou satisfazer um desejo de ser o  diferente, com vergonha de sermos iguais, apenas sobreviventes no mundo possível.

ISOLAMENTO E LIBERDADE

Quando os espanhóis desembarcaram no Caribe, os nativos foram julgados como tolos porque trocavam simples espelhos e bugigangas por ouro e prata. Essa capacidade de enxergar o outro não como diferente, mas simplesmente como sendo outro, possuidor de outras lógicas, ignorando a oportunidade de, na troca de lógicas, angariar benefícios para todos, os conquistadores, e, nesse caso, não falamos dos conquistadores do passado, mas dos conquistadores e detentores de poder, por acúmulo de riquezas, optam por destruir as sociedades, grupos, ou amansá-las.

Na falta das palavras, índios e espanhóis trocam, desde o primeiro encontro, pequenos objetos; e Colombo não se cansa de elogiar a generosidade dos índios que dão tudo por nada. Uma generosidade que, às vezes, parece-lhe beirar a burrice: por que apreciam igualmente um pedaço de vidro e uma moeda? Uma moeda pequena e uma de ouro? “Dei”, escreve, “muitas outras coisas de pouco valor que lhes causaram grande prazer” (“Diário”, 11.10.1492). (TODOROV, 1993, p. 37).

E, quando conclui a descrição das trocas dizendo: “Até pedaços de barris quebrados aceitavam, dando tudo o que tinham, como bestas idiotas!” (“Carta a Santangel”, fevereiro-março de 1493). (IDEM, IBIDEM).

            Isolados, temos um tipo de liberdade. O ermitão goza de uma liberdade, mesmo estando preso a uma solidão, uma solidão de experimentações e de conhecimento. Não no sentido de que conhecimento liberta. Conhecimento traz curiosidades, não liberdade. Conhecimento traz um contentamento em se descobrir coisas novas e dar asas à imaginação. Como indivíduos viajantes que somos, até mesmo como viajantes no espaço-tempo, um durante, um intervalo para alguns entre o nascimento e a morte.

            Mas o intercâmbio nos traz experimentações, o contato com o outro nos fortalece, até mesmo quando abrimos mão de nossos conceitos para adotar o do outro, devidamente absorvido, nos acrescentando não algo de bom ou mau, mas, de transformador. Entender a cultura do outro é compreender a nossa, seja na valoração crítica quanto na decepção ao reencontrá-la. O intercâmbio funciona como o moderador dos nossos sentimentos, da nossa cultura.

Quando mudamos de cidade, por exemplo, de bairro, de estado, de país, o contato com o outro nos transforma. Em uma cidade onde os carros param para que os pedestres atravessem, nos contamina, quando não convivemos com isso. A educação, o convívio para o bem ou para o mal nos contamina. Somos esponja do conviver. Quando voltamos, nós somos outros, nos sentimos mais críticos, ou mais aferrados às nossas habitualidades.

A liberdade se dá dentro de nós. Aquele isolamento interno, aferrado aos preconceitos que damos para o desconhecido, se altera. Não somos mais os mesmos, ou não somos mais dos mesmos, porém com argumentos, com experiências para determinar e demonstrar. E, frequentemente, pessoas viajantes, curiosas com o mundo, são vistas como exageradas nas críticas. O contato com o ideal, com uma estrutura de liberdade, nos faz diferentes.

O isolamento não traz a liberdade, a mistura sim. Compreender é a chave da Liberdade. Aceitação é liberdade. Lembrar que o outro existe é importante para que o isolamento não nos torne tão autossuficientes que achamos que estamos na condição de criticar, de determinar o que o outro deva fazer. Deixamos de ser professores e passamos a alunos.

O isolamento é abandonar a sala de aula, é deixar de aprender e compreender. Abrir-se para o mundo, no sentido de que os nossos olhos não devam determinar o comportamento das pessoas, mas vê-las como o outro. Ver o outro dançar, se vestir, sentar ao seu lado, caminhar, conversar, sendo negro, branco, indígena, ouvir suas vidas, suas histórias, e pensar que em bilhões de seres humanos existem bilhões de histórias diferentes, e, principalmente, capacidade de imaginar que alcançarão trilhões de possibilidades.

Encher a cabeça de histórias de outros, conversar e animadamente demonstrar o mundo. O viajante tem uma felicidade contagiante, porque tem histórias para contar, o viajante conhece o mundo melhor do que nós. O viajante abre mão da segurança e a troca pela Liberdade. Para o viajante o tempo é o presente, o passado é rico e o futuro é uma estrada a ser cumprida.

Se viajássemos mais poderíamos ser mais iguais. A viagem está presa pela incapacidade financeira de alguns e pela incapacidade de cumprimento de outros. A incapacidade financeira não impede outros tipos de viagens como os livros, os filmes, a cultura. A pior é a incapacidade mental, mais do que a física. Pensamentos diversionistas, machistas, racistas são os representantes maiores do isolamento. A incapacidade de ouvir, e não quer dizer aceitar os argumentos do outro, nos torna diferente, embora nos pareça igual, principalmente diante da comunidade.

O grupo que nos define, nos ajuda a orientar nosso comportamento e se considera provedor de nossa liberdade pode não ser aquele que escolhemos conscientemente e (…). Quando nele ingressamos, não praticamos um ato de liberdade, mas uma manifestação de dependência. (BAUMAN & MAYR, 2010, p. 36).

            O sujeito carrancudo, aquele que cria problemas onde não existe, na verdade, é uma doença, e que contamina. Principalmente quando ele tem o poder de comprar, e se torna o ícone do comportamento, o ideal a ser atingido. E quanto mais ele progride, dentro da lógica da nossa sociedade, mais ele é perseguido e persegue o outro. Atribui valor ao que não é devidamente próprio e proporciona a que bugigangas tenham mais valor do que devido.

O poder é, consequentemente, a capacidade de ter possibilidades. Quanto mais poder alguém tem, mais vasto é o leque de escolhas e mais ampla a gama de resultados realisticamente buscáveis. (BAUMAN & MAYR, 2010, p. 98).

            Alguém ou algo tem valor quando as pessoas combinam, pelo inconsciente coletivo ou pela propaganda, o que ele vale. Liberdade é essa capacidade de ignorar o óbvio. A falta de liberdade é atribuir um valor além do fato. O isolamento se encontra com a Liberdade quando a atitude de pensar e pesar na balança é maior.

O valor de ser celebridade leva muitas pessoas a abrir mão do seu isolamento, da sua vida pensada e curtida, da sua segurança para a exposição. São os atalhos, uma forma de prostituir o pensamento, a liberdade para atingir holofotes. Se imaginarmos que os conquistadores que chegaram à América são os mesmos conquistadores de hoje, a sufocação da Liberdade do outro é patrocinada pela valoração dos produtos que eles anunciam, trocando as liberdades de indivíduos por bugigangas, e submetendo-os a um nexo monetário que é absolutamente ignorado por outras civilizações.

É próprio do mundo de hoje, principalmente a cultura ocidental, impingir ao outro um modelo de liberdade. O desrespeito pelo outro já vem de muito longe. Liberdade, cada um tem a sua, e, no entanto, em vez de compreendermos a liberdade do outro e como ela se processa, nosso entendimento em estender a nossa liberdade ao outro não nos faz ver que ela nada significa para ele. Da mesma forma, grupos econômicos acreditam em uma forma de “libertar” a sociedade, não enxergando, da mesma forma que os espanhóis conquistadores, que ela não pode ser imposta. No entanto, podemos entender que a venda de uma “vida de liberdade”, travestida de meritocracias duvidosas, nada mais é do que uma escravização moderna.

Adorno e Horkheimer utilizam o mito de Ulisses para representar essa escravidão, quando,

Ele escuta, mas amarrado impotente ao mastro, e quanto maior se torna a sedução, tanto mais fortemente ele se deixa atar, (…), os burgueses, que recusavam a si mesmos a felicidade com tanto maior obstinação quanto mais acessível ela se tornava (…) – que nada escutam – só sabem do perigo da canção, não de sua beleza (…). (ADORNO & HORKHEIMER, 1985, p. 18-19).

            Nosso isolamento não é a morada em uma gruta ou em um sítio afastado, longe de seres humanos e próximos aos animais. Nosso isolamento é a criação de uma barreira de filtragem onde temos que ponderar se vale a pena trocar nossa liberdade de ser, de estar em paz, pela desagregação e a entrega de nossos corpos e mentes para deleite de alguns. Palhaços se comportando como se fossem atores de primeira grandeza. Isolamento é a separação entre se misturar com conquistadores ou conviver com nossos pares.

            A indiferença com a mediocridade é o melhor remédio, a melhor cancela, para conviver no condomínio da nossa existência.

CONCLUSÃO

DE REPENTE, A LIBERDADE

A cultura ocidental, quando desembarcou nas Américas, trouxe um modelo de vida e a visão de Liberdade também. Hoje, como Adorno e Horkheimer afirmam que “O esclarecimento pôs de lado a exigência clássica de pensar o pensamento” (1985, p. 15). A ausência do ato de pensar da nossa sociedade impede que aceitemos a Liberdade como bem comum, ou individualizado, respeitando as diferenças, estamos presos ao senso comum. Se uma sociedade valoriza determinadas inteligências, em outras outros atributos são indispensáveis.

O empirismo brutal (…), na prática arvoram em desigualdades, naturais ou sociais, às quais os indivíduos humanos estão expostos, as diferenças específicas entre os grupos, existencialmente dados ou arbitrariamente imaginados, em que os classificam. (MARITAIN, 1960, p. 115-116).

            Digamos que somos livres, e de fato somos, podemos fazer o que quisermos, porém a sociedade nos impõe sanções, como leis condominiais, passíveis de punições. E, como já vimos, limitados por essas punições sofremos a perda da Liberdade.

            Para sermos livres seria importante que as oportunidades fossem iguais. Não seríamos olheiros do terreno alheio, colocando como nossos objetivos a oportunidade de poder ganhar sobre o outro, enxergar aquele que é mais fraco e abocanharmos o seu quinhão. Isso não é oportunidade, ou expertise, na melhor definição capitalista, é ganância e desrespeito pelo outro. Não somos cadeias alimentares, e definidos como animais, onde alguns humanos são fortes como leões, sagazes como raposas, fortes como um cavalo, ou burros como os burros, aparentemente são. O engraçado é que a figura do burro é a mais desconcertante. Ele se alimenta, é alimentado, trabalha quando quer, submete-se a pancadas, ignora as vontades do dono e o seu olhar é o mais interessante. Ele tem a figura de um observador e segue sua vida pacientemente. Mas, é sempre necessário. Bem tratado pode corresponder, mal tratado, um coice.

Portanto, o burro não é um burro, ele é um preconceito, é um revoltado passivo, o mais enervante dos seres.

Mais que isso, podemos nos assegurar de nossas crenças graças à suspeita de que “eles” sentem em relação a “nós” reservas e ansiedades equivalentes. A distinção entre “nós” e “eles é por vezes apresentada na sociologia como uma diferença intragrupo e extragrupo. (BAUMAN & MAYR, 2010, p. 52).

            Poderia compará-lo ao desobediente civil. Respeitamos o leão. Não nos aproximamos dele, o isolamos em um local aberto onde convive e vive a sua vida. Ao aprisionarmos ele, damos a ele a melhor liberdade do mundo, onde o preocupado é que se protege. E para ele o mundo é o bastante.

            Somos prisioneiros das nossas ambições. Criamos as grades que nos isolam da liberdade real. Trocamos ofensas, como se o gritar mais alto pudesse alterar ou sufocar o outro. Pegamos em armas, matamos o físico para eliminar o espiritual, o diferente. E se matamos criamos mais ódio e nos tornamos os leões, isolados em um mundo próprio. Mas, não nos sentimos como os leões em paz com a nossa natureza. Nos isolamos em um mundo próprio e nos trancamos em grades. Entramos em nossos condomínios e o mendigo curte a noite estrelada ao relento, deitado na calçada que construímos. Muitos filósofos começam suas peripécias filosóficas enunciando a Natureza, seu funcionamento, suas regras. Estabelecem que cada um segue o seu natural. São semelhanças que combinam com uma época de reis e rainhas que tinham a natureza própria de sangue azul, sangue real. Portanto, nasceram em uma linhagem para comandar.

Quando os laços da aristocracia são rompidos, a humanidade vê-se diante da Liberdade, onde cada um pode fazer o que quiser, e, mais uma vez, um grupo se impõem e determina a natureza advinda do acúmulo de riquezas. Todos combinam que possuir ouro ou prata é o objetivo para a felicidade. Possuir é ser feliz, possuir é comandar, possuir é ter o poder, e ter o poder é permanecer o mundo do jeito próprio. É não decair, é não dividir. É comprar mais direitos de escolhas e ter mais liberdade.

É um contrato. Portanto, o poder é efêmero, mas, ele acena que a riqueza é possível a todos, e os contratantes combinam um absurdo e todos seguem contentes com isso. O burro vai atrás da cenoura na intenção de alcançá-la. Findo o trabalho a ele ela é dada. Mas, alimentado, o burro não a persegue, logo, a lógica é mantê-lo sempre com fome.

O mesmo se aplica ao trabalhador, seja pela fome quanto ao desejo de possuir o dispensável. O problema do ser humano é que ele é insaciável, não percebe que a Liberdade está na simplicidade. Não lhe basta ter uma casa, um carro, uma família, tomar banho duas vezes ao dia e alimentar-se regularmente. Tudo é multiplicável, é preciso ter mais e sempre mais, e abre mão da segurança na busca de mais, e vende sua Liberdade, pagando com o Tempo.

O resultado dessa liberdade de escolher a perseguição do inatingível parece ser condenar-se a permanecer para sempre em estado de privação. (BAUMAN & MAYR, 2010, p. 246).

            Liberdade de escolhas, livre-arbítrio, são palavras que nada significam. São banners. Propagandas a serem compradas, bens inatingíveis. Experimentações são exemplos de liberdade. A provação de elementos, de paisagens, de ver coisas e provar coisas, saborosas ou não, é viver no mundo. Liberdade não existe. O que existe é a falta dela. Para o preso, liberdade é estar fora das grades, e estando fora, ele volta a cometer o crime e a perde. Para o doente é caminhar pelas ruas, e quando o consegue desiste do caminhar e procura outras prisões. Para o poderoso é ter tudo, e como isso é inalcançável ele é prisioneiro da ambição.

            Liberdade não é procurar a felicidade que está no outro ou no outdoor, mas aquilo que nos faz bem. Pensar como separar o que é necessário do que é supérfluo. Quando isso é alcançado, em menor ou maior grau, a impressão é de um despir de fantasia, é uma nudez interna, é um olhar observador, indiferente, aparentemente, da sociedade em torno. É ser ridicularizado e não se importar, é viajar conhecendo gente, admirando ruas, é ler, é consumir o exatamente necessário.

Ou nenhuma dessas coisas. São apenas divagações, é o viajante em busca do prazer de viajar, mais do que chegar. Não somos eternos, estamos em viagem. Aproveite.

 

 

ADORNO, Theodor. W. & HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento – fragmentos filosóficos. Tradução Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro, Zahar, 1985. Reimpressão 2006.

BAUMAN, Zygmunt & MAY, Tim. Aprendendo a pensar com a sociologia. Tradução Alexandre Werneck, Rio de Janeiro, Zahar, 2010

MARITAN, Jacques. Princípios de uma política humanista. Tradução de Antônio Alçada Baptista. Rio de Janeiro, Livraria Agir, 1960.

TODOROV, Tzvetan. A conquista da América – a questão do outro. Tradução Beatriz Perrone Moisés. 2ª. Edição. São Paulo, Martins Fontes, 1993

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