Sobre as manifestações de junho de 2014

OS CANSATIVOS FORMADORES DE OPINIÃO

     Segundo a Wikipédia, opinião em Filosofia “é a forma que cada um tem de expressar suas ideias”, ou, em Jornalismo “é um gênero geralmente escrito ou realizado por colaboradores dos órgãos de comunicação social em questão”. Prefiro o que a enciclopédia diz, no que concerne ao jornalismo, que, “no caso inglês, costumam ser controversas, irritantes, com intuito de causar imediatismo e crítica. São valorizados pela imprensa porque são artigos que pela sua agressividade, vendem”.
     Particularmente, não gosto quando alguém, ao meter o bedelho em assuntos, diz: “Na minha opinião!!”. Prefiro dizer que as pessoas possuam lados. Também existe o tal “salvo melhor juízo”. Preferiria “salvo outro juízo, porque o melhor é o meu”. É mais sincero, mais ético.
     É incontestável que, nesta escolha de lado, vale é o interesse pessoal de cada um. Perguntar a um funcionário público ou de empresa estatal se os mesmos são favoráveis ao Estado mínimo ou à privatização, farão chover sobre o interlocutor uma enxurrada de opiniões pela manutenção do status quo, o que não equivaleria a nenhuma opinião sobre o assunto, apenas o lado que interessa. E por aí vamos, capitalismo x socialismo, esquerda x direita, conservador x liberal e outras tantas.
     Opinião, na verdade, é algo técnico, que se baseia em um fato e sobre ele debatemos, que evolui educadamente até que ela não ofenda algum interesse cartorial. O contrário disso se transforma, como disse Ulisses Guimarães, em um bate-boca.
     É engraçada a requisição dos especialistas, que vão opinar sobre os assuntos. Como eles existem! São tantos que pululam para de repente, desaparecerem! Não se ouve de nenhum deles a clássica consideração que seria a mais responsável: Vamos aguardar a apresentação de todos os fatos e aí concluiremos alguma coisa.
     O interessante é que, no caso Jornalismo, alguns “opinion makers” se apresentam como os guardiães da boa reputação, eloquentes, com voz monocórdia, e ares paternalistas, em alguns casos, maliciosamente misturando alhos com bugalhos para servir a comida temperada que seus chefes determinam.
     E aí ficamos com a tal opinião pública – que foi esculhambada por Churchill, que a sintetizou dizendo que é apenas “aquela que se publica”. Ou alguém, em sã consciência, acharia que o movimento dos caras-pintadas, embalados pela novela da hora, era alguma “opinião pública”? Ou foi transformada em opinião pública? Ou, mais recentemente, as manifestações na Avenida Paulista? Em plena era da internet, alguém usando o velho papel e as manchetes nas bancas de jornal ainda se acha capaz de ser formador de opinião? Aquele primeiro movimento pode ter sido uma comunhão de interesses para a derrubada do governo, mas, interesses. Que se não houvessem não seriam “opinião pública”.
     Na ditadura, nas passeatas e opiniões, ou lados, tínhamos lutas definidas – a tal universalidade. Era a luta pela liberdade de dizer, contra aqueles que se julgavam os donos da verdade.
     Até que chegamos às passeatas que podem ser a manifestação opinativa de um grupo. Perfeito. Mas sempre vão existir aqueles que levam para o seu lado de interesse, e aí podem ser declarados como ladrões de opiniões, oportunistas. E, creiam, não vão muito além dos metros que percorrem. Será que, em pleno século XXI, alguém se julga capaz de formar opiniões, fazendo o outro abrir mão do seu lado?
     Nos movimentos atuais o que temos é a luta daqueles que estão cansados de ouvir bobagens contra aqueles que não se cansam de dizê-las. Tanto de um lado quanto de outro – sempre um lado. Bem poderiam ser enredos de carnaval.
     Uma verdadeira, mas, ainda a ser discutida, foram as manifestações de junho de 2014, totalmente sem controle, mas que não foram capazes de formar uma opinião que incendiasse o Brasil. Mas, para tudo tem um começo.