O HUMOR POLITICAMENTE INCORRETO DO TRAPALHÃO RENATO ARAGÃO

     O humorista Renato Aragão se lamenta porque, hoje, fazer piadas com negros e gays é visto como politicamente incorreto. “Naquela época, essas classes dos feios, dos negros e dos homossexuais, elas não se ofendiam. Elas sabiam que não era para atingir, para sacanear, desabafa”.
     Como elas sabiam que não era para atingir? Elas foram perguntadas, ou a decisão foi simplesmente fazer, dado a representatividade das classes não ser ouvida? A piada sobre negros, feios e gays, para aqueles que protagonizam o humor, como criadores deles, não dimensiona o quanto o outro pode ser atingido.
     Ninguém gosta de ser sacaneado, ou gosta? Quem são aqueles que têm uma característica na sociedade organizada que valoriza determinados atributos, e estão excluídos ou por opção ou por falta de opção e aceitam de bom humor o seu estado?
     Por este motivo, o branqueamento, a busca da estética, ou o esconder a opção sexual tornou-se a única alternativa de aceitação.
     Ser politicamente correto é não excluir o outro, é não tornar o outro o motivo de exclusão e, por conseguinte, tornar-se o incluído, o sacaneador, claro, sem maldades.
     Porém, essas maldades não podem ser uma profissão: a profissão de sacanear o outro, como se ele, por não ter voz, também não tem vez. E nesse teor estão os gordos, os magros, os burros (???).
     A voz do outro alçou um patamar, que, por sua vez, tornou politicamente incorreto o procedimento. A piada, o sacanear o outro é uma mentira que repetida muitas vezes se torna a verdade. É um procedimento que exclui cada vez mais e não inclui. Mesmo quando o próprio gordo, magro, feio e negro se zoam, como a se apropriar do discurso e torná-lo politicamente correto. Mas, indiretamente, sacanea os outros que também são gordos, magros etc.
     O que o humorista não diz é que hoje, para ser motivo de graça e riso, é uma fatura cada vez mais exigente ser engraçado, e isso não é para muitos.