A LIVRE INICIATIVA

     O mundo cada vez mais se aglomera em grandes empresas, detentoras dos grandes apetrechos tecnológicos, não é um mundo onde os fabricantes de computadores, por exemplo, estão espalhados aos milhares. Produtos são protegidos por patentes, ou simplesmente algum país copia descaradamente os produtos de outros, e por oferecerem aquilo mais barato, o mundo consumidor ignora aquilo que as grandes corporações protegem, e o livre mercado engole seco e parte para acordos.
     Foi assim desde a instalação da indústria fabril na Inglaterra onde os tecidos mais baratos entraram em competição, e venceram os finos tecidos indianos e chineses, foi assim com o Japão quando destruiu a indústria suíça de relógios, foi assim com a Coreia quando copiou o Japão e fez os seus modelos industriais, com pequenas alterações e é o que acontece hoje com a China.
     Para sobreviver, os grandes fabricantes se unem e se tornam grandes conglomerados, e, cada vez mais, concentram a renda. Concentrando renda e empresas, concentram empregos, cargos de comando, e trazem mais renda, e exigem mais empregados com salários mais baixos, e discursam com o empreendedorismo de todos, sem exceção, e oportunidade de alcançar os cargos de comando.
     “É a livre iniciativa, estúpido!”.
     Claro que é, mas ser livre iniciativa é abrir empresas? O discurso da livre iniciativa é uma apropriação indevida da livre escolha do indivíduo. Cada um de nós tem a livre iniciativa de iniciar um negócio, ou não. O mundo de oportunidades está aberto a todos, e novamente a livre iniciativa.
     Muitos, no entanto, não almejam a livre iniciativa, almejam uma ocupação que lhes permita desenvolver o seu credo. Nisso podemos incluir, por exemplo, o profissional da Educação, até mesmo o profissional da Saúde, ou ainda o policial, responsável pela Segurança. Nem todos podem e devem estar à disposição da livre iniciativa iniciada por alguns, e que patrocinem seus sonhos e suas ambições.
     Portanto, alguns se recusam ao discurso da livre iniciativa. E isso é visto como um crime, pelo fato de se negarem, por exemplo, a aceitar trabalhar em um fordismo que lhes dá um mísero salário, e abastecem os milhares de reais que alguns poucos se apoderam.
     E aí, no caso do Brasil, entra o Estado, que é visto como o grande provedor dos planos de assistência social, distribuidor da renda para os mais desqualificados, apostando que alguns deles, porque, matematicamente, não será possível que todos, alcancem o discurso da livre iniciativa partam para a realização dos seus sonhos possíveis como empresários. Outros não querem, porque querem uma determinada função na sociedade. Outros, então, não querem função nenhuma. O que não é recomendável, porque todos devem ter uma ocupação, e se partem para o ilícito devem pagar por isso, assim como aqueles que partem para o ilícito para o enriquecimento, no plano empresarial, também devem pagar.
     Se o discurso da livre iniciativa é valorado, ele também não é exclusivo de um determinado grupo. A livre iniciativa é de todos, porque ela é também a livre escolha de destinos. Se o Estado compete com a iniciativa privada em salários, é porque ele acha que não deva ser o primeiro a aviltar o processo de empregos. E também é uma forma de regular o mercado, mostrando que o empobrecimento dos salários, a má distribuição de renda não é boa para ninguém.
     Se um profissional prefere trabalhar para o Estado, e não cede ao discurso do empreendedor, ou por uma questão de satisfação pessoal e profissional ou salarial não é segredo nenhum: “É a livre iniciativa, estúpido!”.
     Voltando ao papel do educador, do profissional de saúde e do policial, por exemplo, são ocupações essenciais à sociedade. Como é função do Estado, alguns fãs da livre iniciativa pregam que esses profissionais não devam reclamar por melhores condições de trabalho e salário, que devam procurar outras oportunidades na … livre iniciativa.
     Ora, a pergunta que ser quer saber é como será a formação de novos profissionais, sem a valorização do professor, do médico e do policial? Afinal, administradores, engenheiros, profissionais de nível médio necessitam de professores, médicos para tratá-los gratuitamente, e assim poderem voltar para os seus trabalhos, e a garantia da segurança pública, por parte de policiais.
     Se bem querem os fãs da livre iniciativa, do Estado mínimo, esses profissionais resolvessem ir para o mercado de trabalho, em busca de melhores condições, e, caso as encontrassem, mudassem de profissão, quem ensinaria e formaria os novos professores e médicos? E a ausência do policial, bem remunerado e qualificado?
     Com certeza procurariam melhores colégios, hospitais e segurança. Por isso pagariam caro pelos serviços, que, certamente, procurariam profissionais para eles. Mas, onde? Não existiriam professores, médicos, policiais. Todos foram para a livre iniciativa.
     Mas, essa é a política, diriam eles, profissionais se apresentariam porque os salários seriam melhores.
     E até que isso, possivelmente, fosse conseguido! Seriam profissionais para servir uma classe mais abastada. Logo os mais pobres não teriam a mínima condição de sobreviver.
     Por isso é mais lógico que o Estado remunere e dê condições de trabalho para esses profissionais? Certamente, os mais pobres seriam melhor qualificados, e todos, em igualdade de condições alcançariam o patamar seguinte, e quem sabe, a livre iniciativa, com todos no mesmo patamar. Ops! Diriam alguns, mas, isso é comunismo!