Quando Marx propôs a existência da mais valia, enquanto pensava a relação entre o capital e o trabalho, dizendo que o único resultado era o lucro, indo para o bolso do capitalista, questionou a relação entre eles. Quanto à mão de obra, somente o trabalho, a entrega dos braços para a fábrica. Sua mais valia não existiu, como não existe até hoje, que seriam as condições de bem-estar, e, por isso, cada vez mais, a mão de obra se entrega, entregando o seu tempo, para poder ter maior poder aquisitivo, e, na verdade, se tornar o consumidor daquilo que ela própria fabrica.
Instalado o processo capitalista, as profissões passaram a ser exercidas não pelo talento e prazer de executá-las, nos mesmos moldes do artesanato, do fabricante que tece um trabalho, uma arte final e a negocia. Enquanto negociante ele trocava o material fabricado pelo dinheiro, e fazia por prazer, por facilidades, enfim, era dono de si mesmo. As relações mudaram.
As profissões foram, com o tempo, se hierarquizando, sendo que muitas delas passaram a não existir, por força da tecnologia e de uma exigência de mercado, cada vez mais específico.
No mundo de hoje, profissões como médicos, professores, advogados, engenheiros, técnicos de alguma especialidade são requisitados pelo mercado. A sua falta, sua necessidade de existir, determina o valor do profissional.
De certa maneira, todos fazem uma escolha profissional ou por gosto, ou por vislumbrar melhores possibilidades negociais no mercado, com o objetivo de angariar maior valor e receber mais por isso.
São escolhas.
No entanto, muitas funções são necessárias e importantes para a sociedade, funções, e não necessariamente profissões, devem ser exercidas por alguém. São subalternas, mas, indispensáveis.
As funções de limpeza urbana, muitas vezes colocadas como o primeiro degrau na escala, e ainda incluindo os porteiros, seguranças, zeladores, faxineiros são aquelas destinadas para os mais desprovidos, tanto no preparo intelectual quanto na habilidade. Não porque esse despreparo intelectual venha de um processo genético, mas de pessoas que não tiveram a oportunidade de receber o treinamento necessário para desenvolver outras habilidades, que são, muitas vezes lhes são negadas, ou elas se colocam de forma humilde como: “isso não é coisa para mim.”. Uma completa assunção de um papel terciário na escala social.
Criou-se, então, um senso comum na sociedade de que o médico, engenheiro, o administrador devam receber melhor remuneração, pelo seu preparo, tempo de investimento e treinamento, com uma pontual exceção para o professor de ensino fundamental, do qual se exige preparo, treinamento, mas a remuneração deixa, em muito, a desejar.
Estabelecido este critério, o mercado seleciona os ungidos nessas profissões, seja por sorte de bem-nascença, ou por um esforço hercúleo, e para estes a remuneração é maior e mais do que justa, prêmio pelo investimento ao longo de anos.
Para as escalas funcionais, consideradas abaixo daquelas, as remunerações são simplesmente humilhantes.
Na verdade, o salário é que almeja o profissional, ou o prazer em ser o sucesso na escolha é que traz o prazer? O que é maior, mais dignificante?
Cabe uma reflexão, no sentido de definir onde está a mais valia nos dois casos.
Para o profissional bem sucedido, que escolhe determinada função, ou por prazer ou por vislumbrar maiores possibilidades de ganho, a mais valia está em fazer o que gosta, ou o que definiu que gosta, e com suas qualificações, considerando que ele cada vez mais investe no processo, a ascensão profissional; e, no caso das funções terciárias, aquele que as executa não escolhe a função, mas a exerce por necessidade, e, consequentemente, somente recebe a remuneração, o ganho.
Não caberia perguntar se existe justiça no salário de ambas as situações? Por que os primeiros devam ganhar tanto mais, numa relação desproporcional em relação aos outros? Até porque a mais valia do primeiro está no prazer de exercer a sua escolha, e para os segundos deveria valer o desprazer de fazer o que ninguém quer fazer. E assim as duas valias teriam equivalências. Deixando o orgulho de lado, que mal existe em que as funções desprazerosas e necessárias também recebam uma remuneração mais justa.
Afinal, quanto vale fazer o que ninguém quer fazer? Quanto vale a desvalia?
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